No meio de todo aquele sábado horrível estava um vestido de noiva no quarto onde a minha irmã também se vestiu para o seu casamento.
Mas não havia flores cor de rosa no quintal que eu pudesse apanhar para fazer a jarra.
Fiquei encostada à escada do sótão, a que tem a glicínia, e chorei.
Chorei porque tive medo, eu acho que o pior é o medo que temos de que as pessoas que gostamos morram misturado com o medo que temos de morrer.
Só havia dálias, algumas muito bonitas, apanhei-as mas a jarra era muito grande.
Eu tratei de tudo enquanto estavam no hospital, eu só parei à noite porque a noiva não tinha a culpa, pensei eu: ela coitada não tem culpa, vai-se casar e sabe que a vida não é fácil, merece que eu varra o quintal e limpe a casa, merece que eu corra a comprar flores, que eu decore o carro do meu pai, todo riscado e amolgado, merece, claro que sim.
O vestido lá pendurado não me dizia grande coisa, nunca me comovo com vestidos de noiva, acho eu.
No domingo de manhã cedo, enquanto fui buscar o bouquet, ainda tentei ir à farmácia, antevendo que ia ficar sem insulina mas estava tudo esgotado ou fechado.
Isto não vai correr bem, pensei eu, enquanto tirava fotografias à noiva e aos padrinhos, perto dos malmequeres altos e amarelos.
Tirei a bomba, andei sem ela durante o dia, voltei às injecções com nph e achei que ia conseguir controlar a glicémia mas quando dei por mim, pelas 14h já estava cheia de nauseas e a pensar: o melhor é eu ir arranjar uma farmácia....
Ora a boda foi na Cachoeira, uma aldeia bem dentro dos montes da região oeste, e saí do casamento discretamente, fazendo a minha irmã prometer que não dizia à minha mãe que eu estava totalmente descompensada.
Depois de 3 farmácias com a insulina esgotada e de bastantes km percorridos, dei por mim no meio de Odivelas, num bairro refundido, de fato de casamento, uma merda de uns saltos de agulha e um vestido que a minha mãe me emprestou de seda verde, e arranjei finalmente insulina.
Regressei a casa... quer dizer, ao quintal, não à minha casa nova mas a casa, onde tinha as minhas coisas.
Pus a bomba e fiz a correcção - aterrei no sofá pelas 19h, não me lembro de grande coisa, só do meu irmão chegar e dizer qualquer coisa, que eu tinha que tomar conta de mim e que não devia ter ido sozinha.
- Provaste o porco grelhado? perguntei
- Sim, estava bom.
- Pois, eu ainda estou agoniada mas estou bem.
Levantei-me e fui ouvir a minha tia a contar da tarde dela no hospital e o domingo acabou com a minha mãe a ser filha e eu a ser doente.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
domingo, 31 de agosto de 2008
31 de Agosto: Come este figo que o ar do campo faz-te tão bem
- Eu peço desculpa mas não me apanhou numa fase muito boa. Agradeço a paciência que tem tido comigo.
- Ora essa, faz parte do meu trabalho - disse eu
São fases mais complicadas - acrescentei e baixei os olhos, tive medo que ela chorasse. Tinha o cabelo um bocado desgrenhado, faltavam-lhe as palavras, tinha caído no abismo do conhecimento bibliográfico ao aperceber-se, após fazer pesquisas, que há milhares de coisas para ler, e a vida são só 3 dias.
Tive pena dela.
Não por causa da bibliografia, quem lhe manda a ela ir pesquisar "associativismo" e ciência política" em bases de dados internacionais.
Tive pena por ela estar envergonhada da sua figura, da sua fraca figura.
Eu devia ter pegado na mão dela e ter-lhe dito:
- Ouça, eu acho que se a menina estivesse mesmo mal, não andaria bem vestida como anda. Pronto, talvez esse cabelo não faça o seu estilo, talvez faça parte da sua rotina pentear-se e agora nesta sua "fase " não o consiga fazer. Mas repare como ainda tem o cuidado de escolher a roupa interior adequada para essas calças de linho brancas que usa. Está muito apresentável, só quem olhar com muita atenção verá que está desleixada.
Devia também dizer-lhe também que me compadecia dela porque
- Eu já passei pelo mesmo, eu já disse a pessoas que não me estavam a conhecer na minha melhor fase, já o disse até muitas vezes, até entender que as fases são boas e más ao mesmo tempo e até me aperceber que as fases boas foi aquela tarde em Julho quando eu consegui construir uma cabana ou quando a gata Beca me deixou filmar o parto dela num início de primavera ou mesmo quando o meu cabelo estava mesmo fixe num dia em Novembro acho eu. E houve um serão quando eu fiz uma princesa-fantoche muito simpática.
Nesse instante é que eu devia ter conhecido toda a gente que há nesta vida para eu conhecer para me apanharem numa fase mesmo boa.
Para próxima eu salto do balcão, abraço-a e digo-lhe:
-Eu também tenho vergonha das minhas fases de desânimo e de pressão.
E mostro-lhe umas cuecas cor de laranja e um soutien preto por baixo de um vestido transparente.
- Ora essa, faz parte do meu trabalho - disse eu
São fases mais complicadas - acrescentei e baixei os olhos, tive medo que ela chorasse. Tinha o cabelo um bocado desgrenhado, faltavam-lhe as palavras, tinha caído no abismo do conhecimento bibliográfico ao aperceber-se, após fazer pesquisas, que há milhares de coisas para ler, e a vida são só 3 dias.
Tive pena dela.
Não por causa da bibliografia, quem lhe manda a ela ir pesquisar "associativismo" e ciência política" em bases de dados internacionais.
Tive pena por ela estar envergonhada da sua figura, da sua fraca figura.
Eu devia ter pegado na mão dela e ter-lhe dito:
- Ouça, eu acho que se a menina estivesse mesmo mal, não andaria bem vestida como anda. Pronto, talvez esse cabelo não faça o seu estilo, talvez faça parte da sua rotina pentear-se e agora nesta sua "fase " não o consiga fazer. Mas repare como ainda tem o cuidado de escolher a roupa interior adequada para essas calças de linho brancas que usa. Está muito apresentável, só quem olhar com muita atenção verá que está desleixada.
Devia também dizer-lhe também que me compadecia dela porque
- Eu já passei pelo mesmo, eu já disse a pessoas que não me estavam a conhecer na minha melhor fase, já o disse até muitas vezes, até entender que as fases são boas e más ao mesmo tempo e até me aperceber que as fases boas foi aquela tarde em Julho quando eu consegui construir uma cabana ou quando a gata Beca me deixou filmar o parto dela num início de primavera ou mesmo quando o meu cabelo estava mesmo fixe num dia em Novembro acho eu. E houve um serão quando eu fiz uma princesa-fantoche muito simpática.
Nesse instante é que eu devia ter conhecido toda a gente que há nesta vida para eu conhecer para me apanharem numa fase mesmo boa.
Para próxima eu salto do balcão, abraço-a e digo-lhe:
-Eu também tenho vergonha das minhas fases de desânimo e de pressão.
E mostro-lhe umas cuecas cor de laranja e um soutien preto por baixo de um vestido transparente.
sábado, 23 de agosto de 2008
Quando eu for uma mulher, saberei lidar melhor com estas e outras situações
- Oh filha, pra que é que queres isso? É muito fácil: compras daquelas capas de baixo coloridas, do tamanho do teu colchão, e usas pra cima os que quiseres.
- Pois é.
E olhei para o Estádio de Alvalade, da janela do Pulido Valente, e abri bem os olhos para não chorar ao pé dela.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
O muro é de lamentações, não é de súplicas

Sentada na sala de espera do último piso (o das crianças e dos bombistas) eu olhava para a televisão, metade interessada, metade ansiosa por estar a perder tempo útil de trabalho (não cumprir os horários que faço para mim própria causa-me subtis mas intensos ataques de pânico - os meus traços obssessivo-compulsivos às vezes assustam-me).
Foi quando desviei o olhar da televisão para o desenho do mickey, com certeza mickey diabético, que veio aquela sensação estranha quando nos lembramos dos sonhos.
Meu deus, sonhei com o meu avô. Ele tinha chapéu e fato de riscas.
Nunca conheci o meu avô paterno mas durante a noite eu estive com ele e ele era uma pessoa diferente da que me dizem que ele era.
Mostrei-lhe a minha casa nova, tentei leva-lo a ver a minha mãe, ela ia ficar tão contente ao sabe-lo vivo.
Andamos em edificios de pedra, com grandes e austeras varandas mas eu sofria muito.
Não quero mais recordar este sonho, foi demasiado intenso.
A noção de que o meu avô me apareceu em sonhos porque me quer dizer qualquer coisa desinquietou-me durante toda esta sexta feira.
Lembro-me sempre do "Nazareno", uma opera rock do Frei hermano da Camara, onde a Amália fazia de Madalena e havia a famosa cena dela ir ter com Jesus e todos ficarem a olhar por ela ser bonita (na minha versão é bonita em vez de prostitua). E essa cena tem uma musica que é:
Eu sonhei em sonhos que aí com Simão, jantavas oh Cristo de faces radiosas, e trago-vos cravos, trago-vos rosas...
É que Deus resolvia muitos assuntos através de sonhos.
Antes de ir para Israel, a minha mãe disse-me:
- Escreve um papelinho para eu pôr no muro das lamentações. Eu não o leio.
Mas eu perguntei:
- Mas é pra escrever uma lamentação ou uma prece?
- Uma prece - disse ela, como se toda a vida tivesse ido deixar recados no Muro (se calhar toda a vida o fez mas a sonhar).
Lamento, prece, suplica, pedido, oração não são coisas exactamente iguais e não me parece justo encher o muro das lamentações de pedidos.
Escrevi então um pedido no papel dos recados telefónicos e dei à minha mãe, dobradinho em 6.
Se calhar mais valia ter feito um lamento concluindo com uma nota a Deus a dizer:
- Se és Deus, deves saber melhor do que eu o que afinal preciso. Eu dizer problemas até consigo mas as soluções nem sempre são claras para mim.
Como os sonhos.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Não me apetece aspirar, faz demasiado barulho
Tenho a casa suja.
Tenho a vida desarrumada.
Tenho pêlos nas pernas.
Tenho uma ferida na nuca.
Tenho o cabelo comprido.
Tenho o crochet por fazer.
Tenho um chapéu de palha cor de rosa.
Tenho um boné caqui com um laço.
Tenho um vestido de hospedeira.
Tenho uma pinça ferrugenta.
Tenho uma tese para acabar.
Tenho loiça pra lavar.
Tenho um amor por resolver.
Tenho uma bomba para encher.
Tenho uns pés calejados.
Tenho uma família com problemas.
Tenho um chão de bamboo.
Tenho uma gata longe de mim.
E nem sequer gosto de ervilhas.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Sem ti na minha equipa sinto-me desprotegida Cíntia Petit
Tive uma cacta chamada Cíntia.
Chamei-lhe assim porque ela cintilava ao sol.
Era muito fofinha e eu dava-lhe muitos beijinhos.
Era uma excelente conversadora.
Não me lembro que idade tinha eu, 13 anos talvez.
Levava-a para todo o lado.
As pessoas achavam um bocado estranho mas não se desmanchavam.
- Que cacto tão lindo que trazes aí!
- É uma cacta!!
A Cíntia foi brutalmente assassinada pela cadela Nikita, que agora tem cataratas e está cega de uma vista. Os seus dentes estão a cair e está num estado entre asqueroso e deprimente, tadita.
Ter a Cíntia do meu lado era ter força, ela era uma soldada, o meu braço direito na guerra da vida.
Agora tenho uma planta que a L. me deu, com flores brancas muito lindas, e um vaso onde plantei agriões, outro com salsa que espero que cresça e outro ainda com uma batata doce, de onde brotam folhas verdes em abundância luxuriante.
Falei hoje com a minha avó sobre hortelã e avenca e outras plantas mas ela disse-me que "isso não eram assuntos para se tratar por telefone".
Se eu sair de casa alguns dias, vou levar as minhas plantas comigo, para elas tomarem conta de mim.
Por isso, Petit, pensa bem no que estás a fazer ao ires embora assim.
Toda a gente precisa de um pitbul na sua equipa ou de uma cacta na sua vida.
Toda gente deve ter uma cacta chamada Cíntia, um Petit na sua equipa, uma avó a falar apenas em agudos, um sofá para ver televisão, um bidé para o que der e vier, um copo de água, um pacote de lenços, uma rua para andar, um abraço quando o Benfica marca, uma porta para fechar com força, uma carícia matinal, salsa, louro, coentros, sal, alho, limão, cobertores, leques e tapetes fofos, toda a gente deve ter um amor correspondido para protecção e bem estar.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Peso 64 kg: so what?

No programa da Tyra Banks que hoje está a passar na Sic Mulher, acho que combinaram vir todas de vermelho.
A Tyra engordou e falou disso na revista People.
E então estão muitas senhoras de fato de banho comprido, vermelho, e com o peso escrito a branco.
Todas elas estão muito contentes porque a Tyra disse que pesava 73 kg mas que se sentia hot na mesma.
Gritam: as minhas coxas roçam uma na outra, so what? E todas batem palmas.
Também eu estou muito feliz.
Este programa é fabuloso, mas eu sou facilmente impressionavel.
Doi-me a cabeça, não me sinto nada hot.
Passo muitas horas com valores baixos de glicemia, sem fazer descidas nem hipoglicemias mas mantendo sempre glicemias baixas durante a tarde, porque a bomba estabiliza os valores.
Ora isso, para além de dar uma valente enxaqueca, dá-me uma moleza muito grande.
Eu e a minha bomba estamos cansadas, e um bocado desanimadas, mas a Tyra disse que é importante fazer uma alimentação saudável e, ao mesmo tempo, devemos deixar que o nosso marido nos leve a um bufete e podemos repetir o prato e mandar um video para o programa dela.
Estas senhoras todas vestidas de maillot vermelho deram-me alento para amanhã ir trabalhar de cabeça erguida.
É que as minhas coxas também roçam uma na outra e, para alem disso, eu gosto de tirar macacos do nariz.
Vou enviar um video de mim a tirar macacos e a coçar-me à Tyra.
Pode ser que me convidem para o seu programa, de maillot cor de rosa.
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