Último dia de Verão e sujei a minha perna direita com toner preto.
E embora eu diga sempre "leite!", se eu pensar um bocadinho antes de falar, a vaca bebe água mas também bebeu leite.
Portanto, decidi que há assuntos sobre os quais não quero falar.
É tudo pouco claro, pouco recto, muito branco e pouco preto.
Às tantas, o motorista do autocarro estava a olhar para a minha perna cheia de tinta preta - eu só dei conta disso já na livraria, passei por lá porque às vezes vou à procura de livros como quem procura maridos, sem grande critério, fáceis, maleáveis, coloridos, cheirosos.
Lembrei-me do Barão Trepador, ando a olhar para a minha nogueira já há 3 fins de semana.
Aquela nogueira gigante, como um super-anjo, verde e intenso, ligeiramente monstruosa, as nozes agora cheiram a iodo, e, se bem me lembro, tronco a tronco eu consigo chegar a um espaço onde, bem encaixada, fico confortável a olhar cá para baixo.
A vaca bebe água e bebe leite, eu abri as mãos a percorrer a avenida da republica, por causa do sol nas minhas palmas - é o ultimo dia do Verão, devia fazer alguma coisa - por isso entrei numa loja chinesa e comprei umas peúgas pretas.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Do teu nome eu fiz um poema, a pensar em ti, em ti Madalena. Obrigada, José Malhoa
Fevereiro. Porto.
O conferencista do workshop sobre arte e fé falava como um sapo velho, rouco, empertigado, obcecado por arte, parecia-me que ele não estava para brincadeiras.
Da Sé levou-nos para a Igreja de Santa Clara.
Entramos e fomos-nos sentando aos poucos, enchendo o templo.
Quando estávamos quase todos sentados, pareceu-me, a mim de boca escancarada a olhar em volta, que se fez silêncio.
- Compreendem agora o conceito de arte total?, perguntou o sapo baixinho ao microfone, de olhos a brilhar, como se estivesse a dizer Vêem, vêem como tenho razão em ser obcecado pelo barroco, pela talha dourada? Vêem? Vejam com os vossos olhos, vejam como tenho razão até ao infinito para sempre.
- Compreendem agora o conceito de arte total?
Mais ou menos.
Meados de Agosto. No regresso a Lisboa.
Amar o que está próximo.
Depois vou entender que o que está longe - e me parece tão melhor - será próximo quando eu lá chegar.
Que este próximo já foi longe.
E agora é próximo e eu odeio-o.
14 de Agosto. Mesa do jantar.
- Não foste ter connosco à praia. Não foste à festa. Vou dizendo às pessoas que ainda perguntam por ti que estás noutra, que já não gostas deles.
Eu fiquei em pânico e confessei: Não lhes digas isso, isso não é verdade (quem me dera ter "outra" para estar, pensei eu). Sabes que tenho problemas na cabeça não é?
- Sim, eu sei.
Vesti-me e dancei no baile várias versões do Pai da Criança.
Sim, compreendo agora o conceito de arte total.
O conferencista do workshop sobre arte e fé falava como um sapo velho, rouco, empertigado, obcecado por arte, parecia-me que ele não estava para brincadeiras.
Da Sé levou-nos para a Igreja de Santa Clara.
Entramos e fomos-nos sentando aos poucos, enchendo o templo.
Quando estávamos quase todos sentados, pareceu-me, a mim de boca escancarada a olhar em volta, que se fez silêncio.
- Compreendem agora o conceito de arte total?, perguntou o sapo baixinho ao microfone, de olhos a brilhar, como se estivesse a dizer Vêem, vêem como tenho razão em ser obcecado pelo barroco, pela talha dourada? Vêem? Vejam com os vossos olhos, vejam como tenho razão até ao infinito para sempre.
- Compreendem agora o conceito de arte total?
Mais ou menos.
Meados de Agosto. No regresso a Lisboa.
Amar o que está próximo.
Depois vou entender que o que está longe - e me parece tão melhor - será próximo quando eu lá chegar.
Que este próximo já foi longe.
E agora é próximo e eu odeio-o.
14 de Agosto. Mesa do jantar.
- Não foste ter connosco à praia. Não foste à festa. Vou dizendo às pessoas que ainda perguntam por ti que estás noutra, que já não gostas deles.
Eu fiquei em pânico e confessei: Não lhes digas isso, isso não é verdade (quem me dera ter "outra" para estar, pensei eu). Sabes que tenho problemas na cabeça não é?
- Sim, eu sei.
Vesti-me e dancei no baile várias versões do Pai da Criança.
Sim, compreendo agora o conceito de arte total.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Elogio do homem casado porque o luar de Agosto dá pelo rosto mas o de Janeiro é mais companheiro
1.
Desço as escadas e peço, numa oração rápida, para Deus livrar o meu coração do ódio que nele cresce como uma massa bem fermentada a levedar ao calor.
Torna-se claro para mim que ter ódio no coração logo de manhã é como uma náusea, deve ser como alguns fumadores me dizem que não gostam de fumar em jejum ou de dizer asneiras logo de manhã, é como uma coisa que me conspurca, todo este ódio consubstanciado numa raiva que torna as minhas mãos tensas.
Mas nada que uma oração rápida não resolva.
Fecho os olhos, e penso nos meus pés na levada da azenha, água doce vinda do açude, cobras e toupeiras de água, e pronto, fico menos odiosa, talvez mais radiosa, certamente mais feliz.
2.
O meu primeiro sonho com um homem casado ocorreu há mais de um mês, quando sonhei que um amigo de infância - casado com outra amiga de infância - tentava abraçar-me no carro, daqueles abraços complicados e engenhosos no banco da frente, e ele às tantas levava as mãos à cabeça, como quem diz que faço eu a trair a minha esposa e eu acordei a pensar que os homens casados afinal são só rapazes da minha idade.
Depois, mais recentemente, um outro casado contava-me da sua vida - coisas da vida adulta de casal - e eu distraí-me a reparar que os seus olhos, à volta da pupila, tinham uma gradação de tons, tons terra, que lindos olhos, às tantas ele fez-me uma pergunta e eu disse: hã? desculpa distraí-me, dei uma risadinha e toquei-lhe ao de leve no braço e pensei pronto sou uma cabra, que se atira a homens casados, saí do pé dele assim que pude e empurrei mais umas quantas coisas para o meu inconsciente se entreter.
Um bebé bolsou para cima de mim, todos à minha volta são casados, mas houve alguém que disse que eu ficava bem com um bebé no colo, eu fiquei mal disposta, mal humorada, senti o ódio a crescer, expliquei que adorava ter filhos e que nem sequer abordava esse assunto em publico porque me custava, pensei vou mata-las a todas, essas todas que só sentem a solidão aguda, nunca é crónica como a minha.
Têm fases más, discursam dias a fio sobre elas, sofrem mas depois passa, mas depois vão para casa jantar com o marido e filhos.
Sou como uma cadela raivosa, a rosnar baixinho sem ninguém notar.
Sou uma doente crónica.
Como se a solidão se instalasse em mim como as minhas outras doenças crónicas, e tenho a ideia de que a dos outros passa mas esta fica. Crónica.
Bem sei, é uma ilusão, todos sofremos.
3.
Uma carta do Chade endereçada aos meus pais.
Quis lê-la.
Perseguições, fome, miséria.
Calei-me.
Não digas mais nada.
Quando uma pessoa fica a saber coisas sobre a vida, já não olha da mesma forma para os cartazes do cinema no Corte Inglés.
Fica a lembrar-se da carta do Chade, tabuleiro com comida da Gonatural nas mãos, a pensar no sofrimento dos outros, na ternura dos outros, a caligrafia do comboniano do Chade, a mandar saudades, a dizer que é difícil mas que se habituou e que agora é feliz, e eu ali, de tabuleiro nas mãos, não há nenhum filme bom, o que havia os outros já viram, pensei que é como quando no concerto eu disse a quem estava ao meu lado: até amanhã, vou-me perder de vocês porque eu vou ficar a dançar sem querer saber de ninguém, amanhã falamos, eu vim sozinha, posso ir sozinha, fico bem sozinha a dançar.
Desço as escadas e peço, numa oração rápida, para Deus livrar o meu coração do ódio que nele cresce como uma massa bem fermentada a levedar ao calor.
Torna-se claro para mim que ter ódio no coração logo de manhã é como uma náusea, deve ser como alguns fumadores me dizem que não gostam de fumar em jejum ou de dizer asneiras logo de manhã, é como uma coisa que me conspurca, todo este ódio consubstanciado numa raiva que torna as minhas mãos tensas.
Mas nada que uma oração rápida não resolva.
Fecho os olhos, e penso nos meus pés na levada da azenha, água doce vinda do açude, cobras e toupeiras de água, e pronto, fico menos odiosa, talvez mais radiosa, certamente mais feliz.
2.
O meu primeiro sonho com um homem casado ocorreu há mais de um mês, quando sonhei que um amigo de infância - casado com outra amiga de infância - tentava abraçar-me no carro, daqueles abraços complicados e engenhosos no banco da frente, e ele às tantas levava as mãos à cabeça, como quem diz que faço eu a trair a minha esposa e eu acordei a pensar que os homens casados afinal são só rapazes da minha idade.
Depois, mais recentemente, um outro casado contava-me da sua vida - coisas da vida adulta de casal - e eu distraí-me a reparar que os seus olhos, à volta da pupila, tinham uma gradação de tons, tons terra, que lindos olhos, às tantas ele fez-me uma pergunta e eu disse: hã? desculpa distraí-me, dei uma risadinha e toquei-lhe ao de leve no braço e pensei pronto sou uma cabra, que se atira a homens casados, saí do pé dele assim que pude e empurrei mais umas quantas coisas para o meu inconsciente se entreter.
Um bebé bolsou para cima de mim, todos à minha volta são casados, mas houve alguém que disse que eu ficava bem com um bebé no colo, eu fiquei mal disposta, mal humorada, senti o ódio a crescer, expliquei que adorava ter filhos e que nem sequer abordava esse assunto em publico porque me custava, pensei vou mata-las a todas, essas todas que só sentem a solidão aguda, nunca é crónica como a minha.
Têm fases más, discursam dias a fio sobre elas, sofrem mas depois passa, mas depois vão para casa jantar com o marido e filhos.
Sou como uma cadela raivosa, a rosnar baixinho sem ninguém notar.
Sou uma doente crónica.
Como se a solidão se instalasse em mim como as minhas outras doenças crónicas, e tenho a ideia de que a dos outros passa mas esta fica. Crónica.
Bem sei, é uma ilusão, todos sofremos.
3.
Uma carta do Chade endereçada aos meus pais.
Quis lê-la.
Perseguições, fome, miséria.
Calei-me.
Não digas mais nada.
Quando uma pessoa fica a saber coisas sobre a vida, já não olha da mesma forma para os cartazes do cinema no Corte Inglés.
Fica a lembrar-se da carta do Chade, tabuleiro com comida da Gonatural nas mãos, a pensar no sofrimento dos outros, na ternura dos outros, a caligrafia do comboniano do Chade, a mandar saudades, a dizer que é difícil mas que se habituou e que agora é feliz, e eu ali, de tabuleiro nas mãos, não há nenhum filme bom, o que havia os outros já viram, pensei que é como quando no concerto eu disse a quem estava ao meu lado: até amanhã, vou-me perder de vocês porque eu vou ficar a dançar sem querer saber de ninguém, amanhã falamos, eu vim sozinha, posso ir sozinha, fico bem sozinha a dançar.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Não era bem isto que queria escrever
Sussurrou-me ela:
- Senti uma dor muito forte quando ele estava em cima de mim, tentei aguentar até se despachar mas não deu, só me apetecia gritar, sabe?
- O que é que a vida não nos tira?
Disse eu, a abanar a cabeça.
Ela foi chamada e entrou para a consulta.
Eu fiquei a pensar que tudo o que tenho de bom pode morrer.
Ela tinha prazer e deixou de ter, tudo o que eu tenho pode ser-me retirado pela vida.
Pensei que o mais sensato é então gozar enquanto posso. Mas viver no presente nem sempre é a minha vocação.
Deve haver alguma coisa que a vida não pode tirar.
Dei-me ao trabalho de fazer uma lista mental de "coisas importantes" clássicas - andar a pé, a família, a amizade, a criatividade, a tv cabo, a música, o café, mas pode tudo acabar, pode tudo morrer.
Senti-me como se tivesse 8 anos e tivesse feito uma grande descoberta, como quando há 20 anos finalmente consegui deslocar a pedra que estava lá ao fundo do quintal e encontrei um ninho de cobras.
Tenho uma leve suspeita que poderei encontrar alguma resposta para esta questão na religião (ou a ver o Glee) mas foi num outro sítio que encontrei conforto.
Eu ia dormir com os pés sujos e com uma t shirt a cheirar mal porque na verdade eu estava muito deprimida e deixei-me fluir na imundície.
Mas decidi que não, pés sujos não, levantei-me, lavei os pés, mudei para outra camisa de noite, e olhei para minha cabeceira.
Lá estava a salvação !
O senhor Paulo Camilo morou nesta minha casa e deixou-me uma herança - recebo o catálogo da Dmail.
Sim, folheando o catálogo fiquei novamente com vontade de viver.
Sonhei que em vez do ninho de cobras, eu encontrava debaixo daquela pedra uma criatura sardenta a nascer no meu jardim.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
My hips don't lie: quem tem filhos, tem cadilhos - quem não os tem, cadilhos tem
Dizia ela, ligeiramente aflita, que tinha medo que depois de tantos anos a dizer que não queria filhos, agora que tinha outra opinião, tinha medo de não os ter.
Acrescentou que já tinha pedido a um amigo de confiança para ele lhe fazer um filho, caso fosse preciso.
Ele disse que por ele tudo bem.
Todas as 3 dissemos que sim com a cabeça, que era uma boa solução, mas que podia ser chato se depois continuassem amigos e ele quisesse tomar parte na paternidade.
A casada disse que não queria filhos, que não lhes sentia a falta.
As outras 2 de nós achamos que ela está a pensar mal a vida, que filhos é uma coisa fixe.
É, aliás, A Coisa Mais Fixe De Sempre.
Já que se estava a falar no assunto, eu disse que adorava ter filhos.
Acrescentei que - e era uma coisa que já tinha pensado - também arranjava um amigo para ser pai de um filho meu.
Na verdade, ter filhos é um assunto que eu decidi não pensar sobre ele para não sofrer.
Eu acho que é por isso que eu choro sempre a ver o Glee.
E agora a Shakira.
A Shakira disse-me agora - no concerto de abertura do mundial - que há homens que, só a falar, deixam as mulheres mad mas que eles, se querem continuar bem e ser sábios, devem continuar a ler os sinais do nosso corpo, do corpo das mulheres.
Tu sabes, Shakira, que eu oscilo entre ter a certeza que a minha vida acabou ou achar que ainda não começou.
Mas em certos momentos de lucidez - geralmente quando chego à cidade, logo ali na calçada de carriche - eu sei que a minha vida afinal começou mesmo em Janeiro de 1981.
No fighting - my hips don't lie!
Acrescentou que já tinha pedido a um amigo de confiança para ele lhe fazer um filho, caso fosse preciso.
Ele disse que por ele tudo bem.
Todas as 3 dissemos que sim com a cabeça, que era uma boa solução, mas que podia ser chato se depois continuassem amigos e ele quisesse tomar parte na paternidade.
A casada disse que não queria filhos, que não lhes sentia a falta.
As outras 2 de nós achamos que ela está a pensar mal a vida, que filhos é uma coisa fixe.
É, aliás, A Coisa Mais Fixe De Sempre.
Já que se estava a falar no assunto, eu disse que adorava ter filhos.
Acrescentei que - e era uma coisa que já tinha pensado - também arranjava um amigo para ser pai de um filho meu.
Na verdade, ter filhos é um assunto que eu decidi não pensar sobre ele para não sofrer.
Eu acho que é por isso que eu choro sempre a ver o Glee.
E agora a Shakira.
A Shakira disse-me agora - no concerto de abertura do mundial - que há homens que, só a falar, deixam as mulheres mad mas que eles, se querem continuar bem e ser sábios, devem continuar a ler os sinais do nosso corpo, do corpo das mulheres.
Tu sabes, Shakira, que eu oscilo entre ter a certeza que a minha vida acabou ou achar que ainda não começou.
Mas em certos momentos de lucidez - geralmente quando chego à cidade, logo ali na calçada de carriche - eu sei que a minha vida afinal começou mesmo em Janeiro de 1981.
No fighting - my hips don't lie!
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Crianças saudáveis serão adultos selvagens
Ele abraçava-me e dizia "vamos dançar" e balançávamos como num slow.
Dito assim deste modo, parece bonito, mas eu nunca gostei dele a sério.
Se eu olhasse só para o seu antebraço, era perfeito.
Porque o antebraço dele atraía-me imenso, como uma coisa masculina muito bonita e torneada.
Lembrei-me disto por causa de uma música que deu na TV.
Há muita coisa que eu tenho dentro de mim e que um dia vai sair, como uma longa digestão.
Ou uma longa gravidez.
Como o facto de no escuro a gordura deles se confundir e eu - por momentos aterradores - já não saber bem com quem estava e porquê.
Ele disse-lhe: Para mim, és sempre a mais bonita.
Eu fiquei a observar embevecida a sua maneira ligeiramente adolescente de expressar os sentimentos e comentei isso com ela, a bonita, mas ela explicou-me: São coisas que são importantes num minuto e no outro já não são.
Fiquei invejosa na mesma.
Ter 16 anos aos 31 é mil vezes melhor que ter 31 aos 16.
E vai-se a ver, eu tenho imensa facilidade em andar de saltos altos, um dia destes pego em mim e vou à depilação.
Acho que houve coisas que mudaram e que eu nunca poderia ser feliz solteira a viver no campo.
Porque me contaram que a apanham a chorar muitas vezes, no meio das plantas e dos gatos e eu fiquei numa tristeza sem fim.
Pois a mim dizem-me para eu trazer para a cidade a minha gata mas eu depois seria: solteira, com gatos, benfiquista católica, a trabalhar na função pública, diabética, com artrite e problemas de tiróide. E só vou nos 29 anos.
E neste momento não tenho 16. Tenho 5(3).
Do dia do trabalhador ao dia da criança dista um mês de abstinência que eu me impus para purgar o mal que há em mim.
Descobri que podemos fazer planos e promessas e cumpri-las.
Tentei no advento e consegui, tentei na quaresma e consegui.
É muito estranho - porque eu não costumo fazer planos - mas por vezes funciona.
Do dia do trabalhador ao dia da criança dista um mês e durante esse tempo chega o calor e os pés nas sandálias a suar e eu fui uma adulta saudável.
Está na altura da criança selvagem.
Dito assim deste modo, parece bonito, mas eu nunca gostei dele a sério.
Se eu olhasse só para o seu antebraço, era perfeito.
Porque o antebraço dele atraía-me imenso, como uma coisa masculina muito bonita e torneada.
Lembrei-me disto por causa de uma música que deu na TV.
Há muita coisa que eu tenho dentro de mim e que um dia vai sair, como uma longa digestão.
Ou uma longa gravidez.
Como o facto de no escuro a gordura deles se confundir e eu - por momentos aterradores - já não saber bem com quem estava e porquê.
Ele disse-lhe: Para mim, és sempre a mais bonita.
Eu fiquei a observar embevecida a sua maneira ligeiramente adolescente de expressar os sentimentos e comentei isso com ela, a bonita, mas ela explicou-me: São coisas que são importantes num minuto e no outro já não são.
Fiquei invejosa na mesma.
Ter 16 anos aos 31 é mil vezes melhor que ter 31 aos 16.
E vai-se a ver, eu tenho imensa facilidade em andar de saltos altos, um dia destes pego em mim e vou à depilação.
Acho que houve coisas que mudaram e que eu nunca poderia ser feliz solteira a viver no campo.
Porque me contaram que a apanham a chorar muitas vezes, no meio das plantas e dos gatos e eu fiquei numa tristeza sem fim.
Pois a mim dizem-me para eu trazer para a cidade a minha gata mas eu depois seria: solteira, com gatos, benfiquista católica, a trabalhar na função pública, diabética, com artrite e problemas de tiróide. E só vou nos 29 anos.
E neste momento não tenho 16. Tenho 5(3).
Do dia do trabalhador ao dia da criança dista um mês de abstinência que eu me impus para purgar o mal que há em mim.
Descobri que podemos fazer planos e promessas e cumpri-las.
Tentei no advento e consegui, tentei na quaresma e consegui.
É muito estranho - porque eu não costumo fazer planos - mas por vezes funciona.
Do dia do trabalhador ao dia da criança dista um mês e durante esse tempo chega o calor e os pés nas sandálias a suar e eu fui uma adulta saudável.
Está na altura da criança selvagem.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Acordei completamente desorientada e afinal estava mesmo tudo encharcado; foi horrível, sabes?
O meu coração tornou-se como cera e derreteu-se dentro do meu peito.
A minha garganta ficou seca como barro cozido e a minha língua colou-se ao céu da boca.
Assim me reduzistes ao pó do túmulo.
....por isso desculpa eu estar a contar-te isto, nem te preocupes.
Mas, já agora, queria falar-te de um casal que costumo encontrar a passear no campus, ele é cego, ela é loura, hoje ouvi-os a falar. Ela contava-lhe acerca de alguém (devia ser uma criança) a quem ela perguntou se queria mais alguma coisa e esse alguém disse que queria só leitinho morno. E ela deu-lhe leite morno.
A senhora loura contou ao seu companheiro cego que deu leite morno a alguém que lho pediu.
Eles andam a pé, às vezes é de manhã que os encontro, e inevitavelmente penso em mim, cabra egoísta infantil e adolescente que sou.
O mundo a girar à volta da minha barriga e sinto falta das árvores, eu às vezes fico triste porque penso em não fazer coisas e depois faço-as e penso em não contar mais nada e depois conto tudo, falo horas, horas intermináveis, com princípio, meio, 3 mil historietas à mistura, intercaladas com segredos que me contam, e fim, eu tento sempre terminar num tom positivo, com uma piada ou uma frase feita do tipo "entre mortos e feridos alguém há-de escapar" ou "valha-nos o David Luiz" ou mesmo "não ligues que eu posso não ter nem um décimo do equilíbrio que aparento mas sou espectacular".
Com os meus 29 anos e ainda tenho sardas, sou a única dos 3 irmãos que mantive as sardas, vão ser manchas daqui a não muito tempo. Sentada nos primeiros bancos da igreja, a olhar para o novinho em folha círio pascal, onde está escrito 2010, eu pensei que daqui a 10 anos estará lá escrito 2020 e porque eu na morte acredito mas na ressureição já não sei, penso na liturgia das horas que sei de cor.
Hoje, pela primeira vez, parei uns segundos antes de começar a comer e disse sem falar, obrigada por esta refeição, respirei fundo sem fazer barulho e comecei a comer, como se vivesse num tempo que é outro, é aquele do pátio em frente à casota, a ouvir os Parodiantes de Lisboa e a rir com a minha avó, eles às vezes eram ordinários mas eu podia passar dias a fio a costurar ou a construir cabanas a sentir falta de socialização.
Essas coisas, competências sociais, tanta falta me fazem quando me sobe aquele medo de estar com pessoas novas, jantares, lanches e bailaricos, que falta me faz aquela competência social de não me achar inferior, de não achar que toda a gente sabe segredos que se contam em blogs e jornais especiais, referências comuns, será que algum dia eu vou gostar de sushi?
A minha garganta ficou seca como barro cozido e a minha língua colou-se ao céu da boca.
Assim me reduzistes ao pó do túmulo.
....por isso desculpa eu estar a contar-te isto, nem te preocupes.
Mas, já agora, queria falar-te de um casal que costumo encontrar a passear no campus, ele é cego, ela é loura, hoje ouvi-os a falar. Ela contava-lhe acerca de alguém (devia ser uma criança) a quem ela perguntou se queria mais alguma coisa e esse alguém disse que queria só leitinho morno. E ela deu-lhe leite morno.
A senhora loura contou ao seu companheiro cego que deu leite morno a alguém que lho pediu.
Eles andam a pé, às vezes é de manhã que os encontro, e inevitavelmente penso em mim, cabra egoísta infantil e adolescente que sou.
O mundo a girar à volta da minha barriga e sinto falta das árvores, eu às vezes fico triste porque penso em não fazer coisas e depois faço-as e penso em não contar mais nada e depois conto tudo, falo horas, horas intermináveis, com princípio, meio, 3 mil historietas à mistura, intercaladas com segredos que me contam, e fim, eu tento sempre terminar num tom positivo, com uma piada ou uma frase feita do tipo "entre mortos e feridos alguém há-de escapar" ou "valha-nos o David Luiz" ou mesmo "não ligues que eu posso não ter nem um décimo do equilíbrio que aparento mas sou espectacular".
Com os meus 29 anos e ainda tenho sardas, sou a única dos 3 irmãos que mantive as sardas, vão ser manchas daqui a não muito tempo. Sentada nos primeiros bancos da igreja, a olhar para o novinho em folha círio pascal, onde está escrito 2010, eu pensei que daqui a 10 anos estará lá escrito 2020 e porque eu na morte acredito mas na ressureição já não sei, penso na liturgia das horas que sei de cor.
Hoje, pela primeira vez, parei uns segundos antes de começar a comer e disse sem falar, obrigada por esta refeição, respirei fundo sem fazer barulho e comecei a comer, como se vivesse num tempo que é outro, é aquele do pátio em frente à casota, a ouvir os Parodiantes de Lisboa e a rir com a minha avó, eles às vezes eram ordinários mas eu podia passar dias a fio a costurar ou a construir cabanas a sentir falta de socialização.
Essas coisas, competências sociais, tanta falta me fazem quando me sobe aquele medo de estar com pessoas novas, jantares, lanches e bailaricos, que falta me faz aquela competência social de não me achar inferior, de não achar que toda a gente sabe segredos que se contam em blogs e jornais especiais, referências comuns, será que algum dia eu vou gostar de sushi?
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