sábado, 7 de maio de 2011

O vestido pode ser verde esmeralda, azul petróleo e rosa velho, tudo junto.

Depois de todas as divisões da minha casa ficarem inaptas para habitar, o meu pedreiro, sol das minhas manhãs, percorreu com o olhar a obra por fazer e disse-me, com ar grave e sotaque nordestino:
-Estou preocupado consigo Madalena.

Pois.

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A minha avó vem ter comigo em sonhos e numa dessas noites venturosas fomos as duas, eu com o meu braço encaixado no cotovelo dela, e ela com o seu casaco de malha azul escuro, passear num centro comercial cheio de luzes de todas as cores.
Ia mais gente connosco mas nós as duas ficamos para trás porque tínhamos uma loja onde ir: era uma loja enorme, que só vendia fatos para borboletas.
Ela ia ajudar-me a escolher um vestido para mim.
Mexia neles e fazia o seu julgamento.
Quanto mais diferentes e afirmativos melhor.
Mas ela gostava de quase todos.

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Sentado para trás, com um ar magoado, mas com um sofrimento autocentrado, ele repetiu palavra por palavra o que um outro e um outro e ainda um outro me disseram, exactamente no mesmo contexto.
Num contexto de fim.
E então a situação tornou-se ligeiramente anedótica, e eu quase descontraí, porque ele começava uma frase e eu, como sabia o que ele ia dizer, terminava, como se estivesse num concurso qualquer.
Por exemplo, ele dizia:
- É como se houvessem várias Madalenas....
E eu...
- ... e tu nunca sabes qual vais encontrar.

Ele surpreendeu-se tanto por eu saber o que ele ia dizer como pelo meu entusiasmo infantil neste jogo sórdido.
Mas depois entristeci.
Isto vai doer quando o músculo arrefecer da pancada.
(Talvez nessa altura eu já tenha a minha casa de volta e possa sofrer na totalidade do meu sofá e fazendo pleno uso da minha cozinha)

Entretanto ele fez um ar acusador e perguntou-me se eu não entendia que tinha alguém que gostava mesmo de mim e que isso quase ninguém tinha. Eu devia dar o valor.
Essa frase eu não consegui acabar.

O músculo começou a arrefecer e ele resolveu desistir de mim e disse-o.
E quando me vi sozinha pensei que há uma forte possibilidade de eu não saber tomar decisões nem fazer escolhas acertadas para viver feliz.
Por momentos que ainda duram, passou-me pela cabeça que sim, que a felicidade é fruto das nossas escolhas.

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De maneira que é isto: de que me vale ter um vestido feito para borboletas se não terei oportunidade para o usar?

sexta-feira, 25 de março de 2011

"Dá-me uma coisa que não morra"

eu: eu não consigo
10:51 eu continuo a sofrer com esta fragilidade toda
  fragilidade de vinculo
 outro: eu também
 eu: continuo a querer qualquer coisa que não morra
  e eu sou religiosa, portanto tenho uma crença no absoluto
10:52 isto tudo baralha-me
10:53 desculpa
  estou muito drama hoje
 outro: eu tou mais
  cheira-me
10:54 eu: eu sei que habitamos uma espécie de fronteira
  entre coisas que vemos e coisas que não vemos
  coisas que sabemos e coisas que não sabemos
 outro: yap
10:55 eu: mas tenho dificuldades em descontrair
  em viver
  há coisas, livros ou campos verdes, é como
10:56  uma verdade descarada à nossa frente
  parece que nos vem provocar
  como o demónio 


 
 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

I miss the kisses and I miss the bites.


Deu Red House Painters, Bon Iver, Jeff Buckley a cantar Bob Dylan, deu ainda Mazzy Star e Yo la tengo... enfim, deu esses clichés todos, até começar Marvin Gaye.
Eu fingi que não era importante.

A meio, quando ele falava não faço ideia do quê, eu permiti-me observar.
A forma da cara quando coça o queixo, a boca, os olhos, as sobrancelhas, a pele corada, as pestanas não deu para ver porque não tinha luz suficiente.
A conversa voltou a interessar-me quando se falou de nudez e pensei em coisas.

Fala-me de grandes lagos e de coisas que existem noutros países, de rituais africanos, de milho e azeitonas, de amigos com esgotamentos e de escritórios, de jogos de linguagem, de café e tabaco, o seu entusiasmo pela vida deixa-me num estado de encantamento.
Fico com vontade de argumentar contra mim, explicar-lhe tudo o que eu tenho de errado, através de narrativas dramáticas da minha vida, organizadas como se fosse uma dissertação mas com piadas pelo meio.
Mas, em vez disso, dou por mim a gostar de conversar sobre coisas da vida, coisas grandes e coisitas pequenas.
Eu própria começo a achar que está tudo perfeito.

E quando, horas mais tarde, acho que devo dizer alguma coisa sobre esta relação platónica, digo:
- Quando te vais embora, fico com saudades tuas.
 E o que podia ser um momento romântico, é uma grande confusão de linguagem, saudades é uma expressão demasiado forte, o ir embora tem uma carga internacional, a construção verbal só desajuda, eu tento explicar mas enquanto o faço, deixou de poder ser um "momento harvest moon" e passou a ser só mais uma coisa confusa que eu disse.

As minhas pernas dobradas no sofá, não está tanto frio como tem estado, mas mantenho-me protegida debaixo de uma manta, dentro de uma bolha desesperada, a tentar verbalizar o medo que tenho de relações.
A minha cabeça a mil à hora, a tentar encontrar uma maneira simples de dizer as coisas, entretanto como tenho medo de ficar calada, continuo a dizer parvoíces pouco claras e depois ele foi embora, está tudo bem, há compreensão, entendimento, não há pressão mas o céu está cheio de estrelas, volto para casa a cantar o Não há estrelas do céu e sento-me na minha cozinha, derrotada, a olhar para o meu tecto que está a cair, como uma chuva de sapos, ainda vai cair mais, fico ali sentada quase no escuro a olhar para aquele acidente, aquele sinal divino, o meu drama doméstico ali desenhado no estuque,
 o melhor é eu nem lhe tentar explicar mais nada, o tecto fala por si, eu já lhe disse que achava estranho o estuque ter caído poucas horas depois de ele ter estado sentado lá debaixo a dizer-me coisas importantes, ele concordou comigo e acrescentou que pode ser mau sinal e eu ri-me quando ele disse isso.

Se ele tivesse dito que era bom sinal, eu tinha rido na mesma.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ao menos, quando o carro subiu para o reboque, a sopa não se entornou muito

No dia 11 do 1 de 2011, fiz 30 anos.
Acordei e voltei a adormecer, porque achei que, como fazia anos, ninguém me ia dizer nada por chegar atrasada.
Não tomei banho porque tinha tomado no dia anterior.
Vesti-me de castanho e verde seco, cores de outono. Não ia mal mas também estava longe de ser um devaneio visual.
Escolhi uma das melhores fatias do pão para torrar e depois fui de carro. Não cheguei muito tarde.
Estava bem disposta mas tinha algum receio porque me iam dar os parabéns mas correu tudo bem e eu nem fiquei muito em pânico.

Trabalhei muito, fui muito produtiva.
Vi depois no telemovel e no Facebook mensagens de parabéns, demonstrações de afecto, que já tinham começado na noite anterior. Muita gente me deu o seu testemunho acerca de ter 30 anos. Diz que é mesmo espectacular, só coisas boas, muito melhor que a "pasmaceira" dos 20.

Fui ficando progressivamente mais bem disposta.
Veio a hora de almoço e as minhas amigas surpreenderam-me com umas galochas com laços azuis e verdes. Fui almoçar com uma amiga. Vimos umas senhoras a zangarem-se literalmente no meio da rua mas entramos no nosso café antes de vermos se chegaram a vias de facto.
Comemos filetes e arroz de grelos e ainda pedi sopa mas era mesmo muita comida e não a comi toda. 
Partilhamos um pudim.

A seguir fui conhecer o lar da minha companhia do almoço e gostei muito. Mora no Nº 11, ou então pôs lá a placa só porque era o meu dia de anos, não sei, ela não não me quis dizer.
Descontraí e fiz uma grande hora de almoço.
Estava um dia muito agradável, ameno e quase cheiroso. 
Conversamos e rimos até ao trabalho,

De tarde, fui menos produtiva e respondi à gentileza de quem me tinha enviado os parabéns.
A vida era maravilhosa e ficou ainda melhor porque me oferecerem um CD de bom forró, que pus logo a tocar.

Depois fiz-me ao caminho de casa.
Tive medo porque ia bem disposta mas podia correr tudo mal.
Estava algum trânsito, eu tinha algumas bolachas para comer mas o meu estômago estava tão confortado como o meu coração, mas cabe sempre mais um bocadinho de amor, de modo que comi duas.
Quando cortei para a minha saída da autoestrada, começou a dar o harvest moon e eu comecei a sorrir de uma forma muito estranha, assim parecia que ia rebentar mas não abria a boca nem mostrava os dentes, cerrei os lábios e sorri a musica toda.

No quintal um intervalo de boa disposição. Correu tudo bem, à parte da discussão sobre os bifes (penso que o arroz doce também veio à baila) que eu não cheguei a ouvir.

Assim sendo, e posto este sol, decidi que afinal não vou ceder e furar as orelhas.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Rebound crush



Jorge Samuel.
6º ano.
Não fosse a minha eterna timidez, podia ter corrido tudo bem naquela visita de estudo ao Museu do Traje, em que fizemos um piqueninque mas havia raparigas que já a sabiam toda, e eu era mais inocente e demorada.
Ainda me lembro de saber as suas rotinas e o horário de cor, para lhe poder fazer esperas, passando por ele como se não quisesse saber.


Sérgio.
7º ano e um bocado do 8º.
Engendrei um esquema maravilhoso, que envolvia a queda de um lenço à porta da loja do pai dele, mas precisava de ajuda de duas amigas que me disseram que se calhar o melhor era eu ir falar com ele.
Claro que nunca falei com ele, e vim a saber mais tarde que ele também gostava de ter falado comigo.
Ainda me lembro de saber as suas rotinas e o horário de cor (não era fácil, por causa de estarmos em escolas diferentes), e de lhe fazer esperas. Passava por ele, de lenço azul no pescoço, como se não quisesse saber.


Márcio.
Sim, era eu que ligava para a tua casa.
Para alem disso, sabia as tuas rotinas de cor, fazia-te esperas, passava por ti nervosa e descontrolada. Tinhas-me na mão.  


P.
Há dois ou três anos atrás.
Evoluí para esquemas mais complexos que incluíam bilhetinhos deixados em bolsos de mochilas e tarte de maçã caseira.
Tudo culminou num "date" que afinal não o era, e, no final da noite, dei comigo a dar boleia a ele e à amante dele.
Sabia, como é óbvio, as suas rotinas e os seus horários de cor, para aparecer de repente, e desta vez não me importava que ele soubesse que não era por acaso.


2010.
A minha reumatologista confirmou-me o que eu já suspeitava - sou torta.
Floreada, tortuosa, trama, melindre, esquema, romance de cordel, raramente respostas directas e direitas.
Ela diz que isso faz parte de mim, que até tem muita graça, mas que tem consequências porque a minha estrutura e cartilagens já não estão no melhor estado.
Disse-me que não me ia infiltrar o joelho porque o que eu devia fazer era melhorar a minha atitude através da postura,  "pôr essas mamas para a frente, encolher a barriga e olhar em frente, amplamente".
Olhei para ela desesperada.
Ela não foi na minha conversa.

Dias mais tarde, embora não tenha feito esforço algum para melhorar a minha postura, um rebound crush nascia em mim.
Foi  removida a pedra do túmulo onde jazia o meu coração, que sai agora vitorioso em direcção a um provável desastre.
Graças a Deus, aleluia, aleluia!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Branco Branco Branco - o que é que a vaca bebe?

Último dia de Verão e sujei a minha perna direita com toner preto.


E embora eu diga sempre "leite!", se eu pensar um bocadinho antes de falar, a vaca bebe água mas também bebeu leite.
Portanto, decidi que há assuntos sobre os quais não quero falar.

É tudo pouco claro, pouco recto, muito branco e pouco preto.

Às tantas, o motorista do autocarro estava a olhar para a minha perna cheia de tinta preta - eu só dei conta disso já na livraria, passei por lá porque às vezes vou à procura de livros como quem procura maridos, sem grande critério, fáceis, maleáveis, coloridos, cheirosos.

Lembrei-me do Barão Trepador, ando a olhar para a minha nogueira já há 3 fins de semana.
Aquela nogueira gigante, como um super-anjo, verde e intenso, ligeiramente monstruosa, as nozes agora cheiram a iodo, e, se bem me lembro, tronco a tronco eu consigo chegar a um espaço onde, bem encaixada, fico confortável a olhar cá para baixo.

A vaca bebe água e bebe leite, eu abri as mãos a percorrer a avenida da republica, por causa do sol nas minhas palmas - é o ultimo dia do Verão, devia fazer alguma coisa - por isso entrei numa loja chinesa e comprei umas peúgas pretas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Do teu nome eu fiz um poema, a pensar em ti, em ti Madalena. Obrigada, José Malhoa

Fevereiro. Porto.

O conferencista do workshop sobre arte e fé falava como um sapo velho, rouco, empertigado, obcecado por arte, parecia-me que ele não estava para brincadeiras.
Da Sé levou-nos para a Igreja de Santa Clara.
Entramos e fomos-nos sentando aos poucos, enchendo o templo.
Quando estávamos quase todos sentados, pareceu-me, a mim de boca escancarada a olhar em volta, que se fez silêncio.
- Compreendem agora o conceito de arte total?, perguntou o sapo baixinho ao microfone, de olhos a brilhar, como se estivesse a dizer Vêem, vêem como tenho razão em ser obcecado pelo barroco, pela talha dourada? Vêem? Vejam com os vossos olhos, vejam como tenho razão até ao infinito para sempre.

- Compreendem agora o conceito de arte total?
Mais ou menos.


Meados de Agosto. No regresso a Lisboa.
Amar o que está próximo.
Depois vou entender que o que está longe - e me parece tão melhor - será próximo quando eu lá chegar.
Que este próximo já foi longe.
E agora é próximo e eu odeio-o.


14 de Agosto. Mesa do jantar.
- Não foste ter connosco à praia. Não foste à festa. Vou dizendo às pessoas que ainda perguntam por ti que estás noutra, que já não gostas deles.

Eu fiquei em pânico e confessei: Não lhes digas isso, isso não é verdade (quem me dera ter "outra" para estar, pensei eu). Sabes que tenho problemas na cabeça não é?

- Sim, eu sei.

Vesti-me e dancei no baile várias versões do Pai da Criança.


Sim, compreendo agora o conceito de arte total.