sábado, 5 de fevereiro de 2011
I miss the kisses and I miss the bites.
Deu Red House Painters, Bon Iver, Jeff Buckley a cantar Bob Dylan, deu ainda Mazzy Star e Yo la tengo... enfim, deu esses clichés todos, até começar Marvin Gaye.
Eu fingi que não era importante.
A meio, quando ele falava não faço ideia do quê, eu permiti-me observar.
A forma da cara quando coça o queixo, a boca, os olhos, as sobrancelhas, a pele corada, as pestanas não deu para ver porque não tinha luz suficiente.
A conversa voltou a interessar-me quando se falou de nudez e pensei em coisas.
Fala-me de grandes lagos e de coisas que existem noutros países, de rituais africanos, de milho e azeitonas, de amigos com esgotamentos e de escritórios, de jogos de linguagem, de café e tabaco, o seu entusiasmo pela vida deixa-me num estado de encantamento.
Fico com vontade de argumentar contra mim, explicar-lhe tudo o que eu tenho de errado, através de narrativas dramáticas da minha vida, organizadas como se fosse uma dissertação mas com piadas pelo meio.
Mas, em vez disso, dou por mim a gostar de conversar sobre coisas da vida, coisas grandes e coisitas pequenas.
Eu própria começo a achar que está tudo perfeito.
E quando, horas mais tarde, acho que devo dizer alguma coisa sobre esta relação platónica, digo:
- Quando te vais embora, fico com saudades tuas.
E o que podia ser um momento romântico, é uma grande confusão de linguagem, saudades é uma expressão demasiado forte, o ir embora tem uma carga internacional, a construção verbal só desajuda, eu tento explicar mas enquanto o faço, deixou de poder ser um "momento harvest moon" e passou a ser só mais uma coisa confusa que eu disse.
As minhas pernas dobradas no sofá, não está tanto frio como tem estado, mas mantenho-me protegida debaixo de uma manta, dentro de uma bolha desesperada, a tentar verbalizar o medo que tenho de relações.
A minha cabeça a mil à hora, a tentar encontrar uma maneira simples de dizer as coisas, entretanto como tenho medo de ficar calada, continuo a dizer parvoíces pouco claras e depois ele foi embora, está tudo bem, há compreensão, entendimento, não há pressão mas o céu está cheio de estrelas, volto para casa a cantar o Não há estrelas do céu e sento-me na minha cozinha, derrotada, a olhar para o meu tecto que está a cair, como uma chuva de sapos, ainda vai cair mais, fico ali sentada quase no escuro a olhar para aquele acidente, aquele sinal divino, o meu drama doméstico ali desenhado no estuque,
o melhor é eu nem lhe tentar explicar mais nada, o tecto fala por si, eu já lhe disse que achava estranho o estuque ter caído poucas horas depois de ele ter estado sentado lá debaixo a dizer-me coisas importantes, ele concordou comigo e acrescentou que pode ser mau sinal e eu ri-me quando ele disse isso.
Se ele tivesse dito que era bom sinal, eu tinha rido na mesma.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Ao menos, quando o carro subiu para o reboque, a sopa não se entornou muito
No dia 11 do 1 de 2011, fiz 30 anos.
Acordei e voltei a adormecer, porque achei que, como fazia anos, ninguém me ia dizer nada por chegar atrasada.
Não tomei banho porque tinha tomado no dia anterior.
Vesti-me de castanho e verde seco, cores de outono. Não ia mal mas também estava longe de ser um devaneio visual.
Escolhi uma das melhores fatias do pão para torrar e depois fui de carro. Não cheguei muito tarde.
Estava bem disposta mas tinha algum receio porque me iam dar os parabéns mas correu tudo bem e eu nem fiquei muito em pânico.
Trabalhei muito, fui muito produtiva.
Vi depois no telemovel e no Facebook mensagens de parabéns, demonstrações de afecto, que já tinham começado na noite anterior. Muita gente me deu o seu testemunho acerca de ter 30 anos. Diz que é mesmo espectacular, só coisas boas, muito melhor que a "pasmaceira" dos 20.
Fui ficando progressivamente mais bem disposta.
Veio a hora de almoço e as minhas amigas surpreenderam-me com umas galochas com laços azuis e verdes. Fui almoçar com uma amiga. Vimos umas senhoras a zangarem-se literalmente no meio da rua mas entramos no nosso café antes de vermos se chegaram a vias de facto.
Comemos filetes e arroz de grelos e ainda pedi sopa mas era mesmo muita comida e não a comi toda.
Partilhamos um pudim.
A seguir fui conhecer o lar da minha companhia do almoço e gostei muito. Mora no Nº 11, ou então pôs lá a placa só porque era o meu dia de anos, não sei, ela não não me quis dizer.
Descontraí e fiz uma grande hora de almoço.
Estava um dia muito agradável, ameno e quase cheiroso.
Conversamos e rimos até ao trabalho,
De tarde, fui menos produtiva e respondi à gentileza de quem me tinha enviado os parabéns.
A vida era maravilhosa e ficou ainda melhor porque me oferecerem um CD de bom forró, que pus logo a tocar.
Depois fiz-me ao caminho de casa.
Tive medo porque ia bem disposta mas podia correr tudo mal.
Estava algum trânsito, eu tinha algumas bolachas para comer mas o meu estômago estava tão confortado como o meu coração, mas cabe sempre mais um bocadinho de amor, de modo que comi duas.
Quando cortei para a minha saída da autoestrada, começou a dar o harvest moon e eu comecei a sorrir de uma forma muito estranha, assim parecia que ia rebentar mas não abria a boca nem mostrava os dentes, cerrei os lábios e sorri a musica toda.
No quintal um intervalo de boa disposição. Correu tudo bem, à parte da discussão sobre os bifes (penso que o arroz doce também veio à baila) que eu não cheguei a ouvir.
Assim sendo, e posto este sol, decidi que afinal não vou ceder e furar as orelhas.
Acordei e voltei a adormecer, porque achei que, como fazia anos, ninguém me ia dizer nada por chegar atrasada.
Não tomei banho porque tinha tomado no dia anterior.
Vesti-me de castanho e verde seco, cores de outono. Não ia mal mas também estava longe de ser um devaneio visual.
Escolhi uma das melhores fatias do pão para torrar e depois fui de carro. Não cheguei muito tarde.
Estava bem disposta mas tinha algum receio porque me iam dar os parabéns mas correu tudo bem e eu nem fiquei muito em pânico.
Trabalhei muito, fui muito produtiva.
Vi depois no telemovel e no Facebook mensagens de parabéns, demonstrações de afecto, que já tinham começado na noite anterior. Muita gente me deu o seu testemunho acerca de ter 30 anos. Diz que é mesmo espectacular, só coisas boas, muito melhor que a "pasmaceira" dos 20.
Fui ficando progressivamente mais bem disposta.
Veio a hora de almoço e as minhas amigas surpreenderam-me com umas galochas com laços azuis e verdes. Fui almoçar com uma amiga. Vimos umas senhoras a zangarem-se literalmente no meio da rua mas entramos no nosso café antes de vermos se chegaram a vias de facto.
Comemos filetes e arroz de grelos e ainda pedi sopa mas era mesmo muita comida e não a comi toda.
Partilhamos um pudim.
A seguir fui conhecer o lar da minha companhia do almoço e gostei muito. Mora no Nº 11, ou então pôs lá a placa só porque era o meu dia de anos, não sei, ela não não me quis dizer.
Descontraí e fiz uma grande hora de almoço.
Estava um dia muito agradável, ameno e quase cheiroso.
Conversamos e rimos até ao trabalho,
De tarde, fui menos produtiva e respondi à gentileza de quem me tinha enviado os parabéns.
A vida era maravilhosa e ficou ainda melhor porque me oferecerem um CD de bom forró, que pus logo a tocar.
Depois fiz-me ao caminho de casa.
Tive medo porque ia bem disposta mas podia correr tudo mal.
Estava algum trânsito, eu tinha algumas bolachas para comer mas o meu estômago estava tão confortado como o meu coração, mas cabe sempre mais um bocadinho de amor, de modo que comi duas.
Quando cortei para a minha saída da autoestrada, começou a dar o harvest moon e eu comecei a sorrir de uma forma muito estranha, assim parecia que ia rebentar mas não abria a boca nem mostrava os dentes, cerrei os lábios e sorri a musica toda.
No quintal um intervalo de boa disposição. Correu tudo bem, à parte da discussão sobre os bifes (penso que o arroz doce também veio à baila) que eu não cheguei a ouvir.
Assim sendo, e posto este sol, decidi que afinal não vou ceder e furar as orelhas.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Rebound crush
Jorge Samuel.
6º ano.
Não fosse a minha eterna timidez, podia ter corrido tudo bem naquela visita de estudo ao Museu do Traje, em que fizemos um piqueninque mas havia raparigas que já a sabiam toda, e eu era mais inocente e demorada.
Ainda me lembro de saber as suas rotinas e o horário de cor, para lhe poder fazer esperas, passando por ele como se não quisesse saber.
Sérgio.
7º ano e um bocado do 8º.
Engendrei um esquema maravilhoso, que envolvia a queda de um lenço à porta da loja do pai dele, mas precisava de ajuda de duas amigas que me disseram que se calhar o melhor era eu ir falar com ele.
Claro que nunca falei com ele, e vim a saber mais tarde que ele também gostava de ter falado comigo.
Ainda me lembro de saber as suas rotinas e o horário de cor (não era fácil, por causa de estarmos em escolas diferentes), e de lhe fazer esperas. Passava por ele, de lenço azul no pescoço, como se não quisesse saber.
Márcio.
Sim, era eu que ligava para a tua casa.
Para alem disso, sabia as tuas rotinas de cor, fazia-te esperas, passava por ti nervosa e descontrolada. Tinhas-me na mão.
P.
Há dois ou três anos atrás.
Evoluí para esquemas mais complexos que incluíam bilhetinhos deixados em bolsos de mochilas e tarte de maçã caseira.
Tudo culminou num "date" que afinal não o era, e, no final da noite, dei comigo a dar boleia a ele e à amante dele.
Sabia, como é óbvio, as suas rotinas e os seus horários de cor, para aparecer de repente, e desta vez não me importava que ele soubesse que não era por acaso.
2010.
A minha reumatologista confirmou-me o que eu já suspeitava - sou torta.
Floreada, tortuosa, trama, melindre, esquema, romance de cordel, raramente respostas directas e direitas.
Ela diz que isso faz parte de mim, que até tem muita graça, mas que tem consequências porque a minha estrutura e cartilagens já não estão no melhor estado.
Disse-me que não me ia infiltrar o joelho porque o que eu devia fazer era melhorar a minha atitude através da postura, "pôr essas mamas para a frente, encolher a barriga e olhar em frente, amplamente".
Olhei para ela desesperada.
Ela não foi na minha conversa.
Dias mais tarde, embora não tenha feito esforço algum para melhorar a minha postura, um rebound crush nascia em mim.
Foi removida a pedra do túmulo onde jazia o meu coração, que sai agora vitorioso em direcção a um provável desastre.
Graças a Deus, aleluia, aleluia!
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Branco Branco Branco - o que é que a vaca bebe?
Último dia de Verão e sujei a minha perna direita com toner preto.
E embora eu diga sempre "leite!", se eu pensar um bocadinho antes de falar, a vaca bebe água mas também bebeu leite.
Portanto, decidi que há assuntos sobre os quais não quero falar.
É tudo pouco claro, pouco recto, muito branco e pouco preto.
Às tantas, o motorista do autocarro estava a olhar para a minha perna cheia de tinta preta - eu só dei conta disso já na livraria, passei por lá porque às vezes vou à procura de livros como quem procura maridos, sem grande critério, fáceis, maleáveis, coloridos, cheirosos.
Lembrei-me do Barão Trepador, ando a olhar para a minha nogueira já há 3 fins de semana.
Aquela nogueira gigante, como um super-anjo, verde e intenso, ligeiramente monstruosa, as nozes agora cheiram a iodo, e, se bem me lembro, tronco a tronco eu consigo chegar a um espaço onde, bem encaixada, fico confortável a olhar cá para baixo.
A vaca bebe água e bebe leite, eu abri as mãos a percorrer a avenida da republica, por causa do sol nas minhas palmas - é o ultimo dia do Verão, devia fazer alguma coisa - por isso entrei numa loja chinesa e comprei umas peúgas pretas.
E embora eu diga sempre "leite!", se eu pensar um bocadinho antes de falar, a vaca bebe água mas também bebeu leite.
Portanto, decidi que há assuntos sobre os quais não quero falar.
É tudo pouco claro, pouco recto, muito branco e pouco preto.
Às tantas, o motorista do autocarro estava a olhar para a minha perna cheia de tinta preta - eu só dei conta disso já na livraria, passei por lá porque às vezes vou à procura de livros como quem procura maridos, sem grande critério, fáceis, maleáveis, coloridos, cheirosos.
Lembrei-me do Barão Trepador, ando a olhar para a minha nogueira já há 3 fins de semana.
Aquela nogueira gigante, como um super-anjo, verde e intenso, ligeiramente monstruosa, as nozes agora cheiram a iodo, e, se bem me lembro, tronco a tronco eu consigo chegar a um espaço onde, bem encaixada, fico confortável a olhar cá para baixo.
A vaca bebe água e bebe leite, eu abri as mãos a percorrer a avenida da republica, por causa do sol nas minhas palmas - é o ultimo dia do Verão, devia fazer alguma coisa - por isso entrei numa loja chinesa e comprei umas peúgas pretas.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Do teu nome eu fiz um poema, a pensar em ti, em ti Madalena. Obrigada, José Malhoa
Fevereiro. Porto.
O conferencista do workshop sobre arte e fé falava como um sapo velho, rouco, empertigado, obcecado por arte, parecia-me que ele não estava para brincadeiras.
Da Sé levou-nos para a Igreja de Santa Clara.
Entramos e fomos-nos sentando aos poucos, enchendo o templo.
Quando estávamos quase todos sentados, pareceu-me, a mim de boca escancarada a olhar em volta, que se fez silêncio.
- Compreendem agora o conceito de arte total?, perguntou o sapo baixinho ao microfone, de olhos a brilhar, como se estivesse a dizer Vêem, vêem como tenho razão em ser obcecado pelo barroco, pela talha dourada? Vêem? Vejam com os vossos olhos, vejam como tenho razão até ao infinito para sempre.
- Compreendem agora o conceito de arte total?
Mais ou menos.
Meados de Agosto. No regresso a Lisboa.
Amar o que está próximo.
Depois vou entender que o que está longe - e me parece tão melhor - será próximo quando eu lá chegar.
Que este próximo já foi longe.
E agora é próximo e eu odeio-o.
14 de Agosto. Mesa do jantar.
- Não foste ter connosco à praia. Não foste à festa. Vou dizendo às pessoas que ainda perguntam por ti que estás noutra, que já não gostas deles.
Eu fiquei em pânico e confessei: Não lhes digas isso, isso não é verdade (quem me dera ter "outra" para estar, pensei eu). Sabes que tenho problemas na cabeça não é?
- Sim, eu sei.
Vesti-me e dancei no baile várias versões do Pai da Criança.
Sim, compreendo agora o conceito de arte total.
O conferencista do workshop sobre arte e fé falava como um sapo velho, rouco, empertigado, obcecado por arte, parecia-me que ele não estava para brincadeiras.
Da Sé levou-nos para a Igreja de Santa Clara.
Entramos e fomos-nos sentando aos poucos, enchendo o templo.
Quando estávamos quase todos sentados, pareceu-me, a mim de boca escancarada a olhar em volta, que se fez silêncio.
- Compreendem agora o conceito de arte total?, perguntou o sapo baixinho ao microfone, de olhos a brilhar, como se estivesse a dizer Vêem, vêem como tenho razão em ser obcecado pelo barroco, pela talha dourada? Vêem? Vejam com os vossos olhos, vejam como tenho razão até ao infinito para sempre.
- Compreendem agora o conceito de arte total?
Mais ou menos.
Meados de Agosto. No regresso a Lisboa.
Amar o que está próximo.
Depois vou entender que o que está longe - e me parece tão melhor - será próximo quando eu lá chegar.
Que este próximo já foi longe.
E agora é próximo e eu odeio-o.
14 de Agosto. Mesa do jantar.
- Não foste ter connosco à praia. Não foste à festa. Vou dizendo às pessoas que ainda perguntam por ti que estás noutra, que já não gostas deles.
Eu fiquei em pânico e confessei: Não lhes digas isso, isso não é verdade (quem me dera ter "outra" para estar, pensei eu). Sabes que tenho problemas na cabeça não é?
- Sim, eu sei.
Vesti-me e dancei no baile várias versões do Pai da Criança.
Sim, compreendo agora o conceito de arte total.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Elogio do homem casado porque o luar de Agosto dá pelo rosto mas o de Janeiro é mais companheiro
1.
Desço as escadas e peço, numa oração rápida, para Deus livrar o meu coração do ódio que nele cresce como uma massa bem fermentada a levedar ao calor.
Torna-se claro para mim que ter ódio no coração logo de manhã é como uma náusea, deve ser como alguns fumadores me dizem que não gostam de fumar em jejum ou de dizer asneiras logo de manhã, é como uma coisa que me conspurca, todo este ódio consubstanciado numa raiva que torna as minhas mãos tensas.
Mas nada que uma oração rápida não resolva.
Fecho os olhos, e penso nos meus pés na levada da azenha, água doce vinda do açude, cobras e toupeiras de água, e pronto, fico menos odiosa, talvez mais radiosa, certamente mais feliz.
2.
O meu primeiro sonho com um homem casado ocorreu há mais de um mês, quando sonhei que um amigo de infância - casado com outra amiga de infância - tentava abraçar-me no carro, daqueles abraços complicados e engenhosos no banco da frente, e ele às tantas levava as mãos à cabeça, como quem diz que faço eu a trair a minha esposa e eu acordei a pensar que os homens casados afinal são só rapazes da minha idade.
Depois, mais recentemente, um outro casado contava-me da sua vida - coisas da vida adulta de casal - e eu distraí-me a reparar que os seus olhos, à volta da pupila, tinham uma gradação de tons, tons terra, que lindos olhos, às tantas ele fez-me uma pergunta e eu disse: hã? desculpa distraí-me, dei uma risadinha e toquei-lhe ao de leve no braço e pensei pronto sou uma cabra, que se atira a homens casados, saí do pé dele assim que pude e empurrei mais umas quantas coisas para o meu inconsciente se entreter.
Um bebé bolsou para cima de mim, todos à minha volta são casados, mas houve alguém que disse que eu ficava bem com um bebé no colo, eu fiquei mal disposta, mal humorada, senti o ódio a crescer, expliquei que adorava ter filhos e que nem sequer abordava esse assunto em publico porque me custava, pensei vou mata-las a todas, essas todas que só sentem a solidão aguda, nunca é crónica como a minha.
Têm fases más, discursam dias a fio sobre elas, sofrem mas depois passa, mas depois vão para casa jantar com o marido e filhos.
Sou como uma cadela raivosa, a rosnar baixinho sem ninguém notar.
Sou uma doente crónica.
Como se a solidão se instalasse em mim como as minhas outras doenças crónicas, e tenho a ideia de que a dos outros passa mas esta fica. Crónica.
Bem sei, é uma ilusão, todos sofremos.
3.
Uma carta do Chade endereçada aos meus pais.
Quis lê-la.
Perseguições, fome, miséria.
Calei-me.
Não digas mais nada.
Quando uma pessoa fica a saber coisas sobre a vida, já não olha da mesma forma para os cartazes do cinema no Corte Inglés.
Fica a lembrar-se da carta do Chade, tabuleiro com comida da Gonatural nas mãos, a pensar no sofrimento dos outros, na ternura dos outros, a caligrafia do comboniano do Chade, a mandar saudades, a dizer que é difícil mas que se habituou e que agora é feliz, e eu ali, de tabuleiro nas mãos, não há nenhum filme bom, o que havia os outros já viram, pensei que é como quando no concerto eu disse a quem estava ao meu lado: até amanhã, vou-me perder de vocês porque eu vou ficar a dançar sem querer saber de ninguém, amanhã falamos, eu vim sozinha, posso ir sozinha, fico bem sozinha a dançar.
Desço as escadas e peço, numa oração rápida, para Deus livrar o meu coração do ódio que nele cresce como uma massa bem fermentada a levedar ao calor.
Torna-se claro para mim que ter ódio no coração logo de manhã é como uma náusea, deve ser como alguns fumadores me dizem que não gostam de fumar em jejum ou de dizer asneiras logo de manhã, é como uma coisa que me conspurca, todo este ódio consubstanciado numa raiva que torna as minhas mãos tensas.
Mas nada que uma oração rápida não resolva.
Fecho os olhos, e penso nos meus pés na levada da azenha, água doce vinda do açude, cobras e toupeiras de água, e pronto, fico menos odiosa, talvez mais radiosa, certamente mais feliz.
2.
O meu primeiro sonho com um homem casado ocorreu há mais de um mês, quando sonhei que um amigo de infância - casado com outra amiga de infância - tentava abraçar-me no carro, daqueles abraços complicados e engenhosos no banco da frente, e ele às tantas levava as mãos à cabeça, como quem diz que faço eu a trair a minha esposa e eu acordei a pensar que os homens casados afinal são só rapazes da minha idade.
Depois, mais recentemente, um outro casado contava-me da sua vida - coisas da vida adulta de casal - e eu distraí-me a reparar que os seus olhos, à volta da pupila, tinham uma gradação de tons, tons terra, que lindos olhos, às tantas ele fez-me uma pergunta e eu disse: hã? desculpa distraí-me, dei uma risadinha e toquei-lhe ao de leve no braço e pensei pronto sou uma cabra, que se atira a homens casados, saí do pé dele assim que pude e empurrei mais umas quantas coisas para o meu inconsciente se entreter.
Um bebé bolsou para cima de mim, todos à minha volta são casados, mas houve alguém que disse que eu ficava bem com um bebé no colo, eu fiquei mal disposta, mal humorada, senti o ódio a crescer, expliquei que adorava ter filhos e que nem sequer abordava esse assunto em publico porque me custava, pensei vou mata-las a todas, essas todas que só sentem a solidão aguda, nunca é crónica como a minha.
Têm fases más, discursam dias a fio sobre elas, sofrem mas depois passa, mas depois vão para casa jantar com o marido e filhos.
Sou como uma cadela raivosa, a rosnar baixinho sem ninguém notar.
Sou uma doente crónica.
Como se a solidão se instalasse em mim como as minhas outras doenças crónicas, e tenho a ideia de que a dos outros passa mas esta fica. Crónica.
Bem sei, é uma ilusão, todos sofremos.
3.
Uma carta do Chade endereçada aos meus pais.
Quis lê-la.
Perseguições, fome, miséria.
Calei-me.
Não digas mais nada.
Quando uma pessoa fica a saber coisas sobre a vida, já não olha da mesma forma para os cartazes do cinema no Corte Inglés.
Fica a lembrar-se da carta do Chade, tabuleiro com comida da Gonatural nas mãos, a pensar no sofrimento dos outros, na ternura dos outros, a caligrafia do comboniano do Chade, a mandar saudades, a dizer que é difícil mas que se habituou e que agora é feliz, e eu ali, de tabuleiro nas mãos, não há nenhum filme bom, o que havia os outros já viram, pensei que é como quando no concerto eu disse a quem estava ao meu lado: até amanhã, vou-me perder de vocês porque eu vou ficar a dançar sem querer saber de ninguém, amanhã falamos, eu vim sozinha, posso ir sozinha, fico bem sozinha a dançar.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Não era bem isto que queria escrever
Sussurrou-me ela:
- Senti uma dor muito forte quando ele estava em cima de mim, tentei aguentar até se despachar mas não deu, só me apetecia gritar, sabe?
- O que é que a vida não nos tira?
Disse eu, a abanar a cabeça.
Ela foi chamada e entrou para a consulta.
Eu fiquei a pensar que tudo o que tenho de bom pode morrer.
Ela tinha prazer e deixou de ter, tudo o que eu tenho pode ser-me retirado pela vida.
Pensei que o mais sensato é então gozar enquanto posso. Mas viver no presente nem sempre é a minha vocação.
Deve haver alguma coisa que a vida não pode tirar.
Dei-me ao trabalho de fazer uma lista mental de "coisas importantes" clássicas - andar a pé, a família, a amizade, a criatividade, a tv cabo, a música, o café, mas pode tudo acabar, pode tudo morrer.
Senti-me como se tivesse 8 anos e tivesse feito uma grande descoberta, como quando há 20 anos finalmente consegui deslocar a pedra que estava lá ao fundo do quintal e encontrei um ninho de cobras.
Tenho uma leve suspeita que poderei encontrar alguma resposta para esta questão na religião (ou a ver o Glee) mas foi num outro sítio que encontrei conforto.
Eu ia dormir com os pés sujos e com uma t shirt a cheirar mal porque na verdade eu estava muito deprimida e deixei-me fluir na imundície.
Mas decidi que não, pés sujos não, levantei-me, lavei os pés, mudei para outra camisa de noite, e olhei para minha cabeceira.
Lá estava a salvação !
O senhor Paulo Camilo morou nesta minha casa e deixou-me uma herança - recebo o catálogo da Dmail.
Sim, folheando o catálogo fiquei novamente com vontade de viver.
Sonhei que em vez do ninho de cobras, eu encontrava debaixo daquela pedra uma criatura sardenta a nascer no meu jardim.
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