Distraí-me um bocado e ouvi expressões como "burgueses" ou "infantários para a classe operária".
Do grupo de 6 que ali estavam, eu era a mais operária deles todos e talvez por isso não tivesse nada para dizer, ou mesmo que tivesse, não saberia falar aquela linguagem.
Depois o tema passou para a ocupação das casas em Lisboa e como "caso o Bloco e o PC tenham bons resultados nas próximas eleições, será possível gerar um clima de menor repressão e assim criar um movimento que, de um dia para o outro e em grande escala, ocupe os fogos vazios", resolvendo o problema de quem não tem casa.
Voltei a distrair-me e recomecei a ouvir precisamente na altura em cada um ia contando a sua história de como era viver em Barcelona antes da cidade se tornar suíça (eu pareceu-me ouvir "suíça" mas eu não sei nada sobre Barcelona).
Barcelona - e outras cidades estrangeiras -foi tema de conversa durante bastante tempo.
Toda a gente parecia ter vivido em Barcelona e todos concordavam que lá a esquerda é a sério, e não têm pejo em usar a violência.
A violência é condenada por todos os que estavam à mesa, mas uns falavam da repressiva e outros da esquerdista.
Horas antes, eu queixava-me à minha médica de como as noites de humidade eram difíceis para mim.
- Pois, é que tu tens ...
- ... uma doença.. eu sei - completei eu, e ri-me.
Rimo-nos as duas.
Estava a queixar-me como se fosse estranho eu ter dores, e é mais do que normal para quem tem doenças reumáticas - ou outras - ter dores.
Pensei que não ia ficar afectada o resto da tarde mas fiquei um pouco.
Fico sempre, após as consultas.
E, ao final do dia, eu ouvia-os a falar - gosto deles todos, são boas pessoas - e pensei que eles estão só a lutar por um mundo mais familiar, por mais justiça, eu não devo ter vontade de rir quando eles falam em burguesia, nem das cusquices das pessoas dos movimentos de esquerda e essas coisas.
São só pessoas, é o que eu começo a entender quando fico a sentir-me com vontade de ir embora ver televisão.
(esta sensação estende-se aos grupos que falam de cinema, musica, academia, e outros temas que têm todo um código não só de linguagem mas também estético, que impõe o que se deve e o que não se deve ser, ou gostar, ou dizer)
Por isso, em vez de rir para dentro enquanto fingia que ouvia, eu lembrei que cada um deles é uma pessoa de quem até gosto, levantei-me e disse que estava cansada e que ia embora.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Um dia sem coração é bom, devias experimentar Colette
Hoje acordei sem coração.
Nada me ocorre de sentimental, absolutamente nada.
É um maravilhoso mundo que conheço agora, de grão com bacalhau e a hortelã vivaz na minha cozinha, e sou só uma rapariga que vive e janta sozinha.
Os dias em Junho são grandes e eu, a pensar no Cesário Verde, reflicto em como o campo e a cidade são diferentes, como eu sou diferente do campo agora nestes dias que acordo sem coração na cidade.
Penso também nas wee small hours do frank sinatra e arregaço as calças do pijama porque está mesmo calor.
No meu quintal de certeza que hoje há pirilampos.
Não me confundo, eu não estou "fria", nem "insensível", nada disso.
Quando eu digo que acordei sem coração, apenas quero dizer qualquer coisa como: acordei sem coração.
Perto da minha casa, está a rua Cesário Verde, e eu hoje pensei em ir lá tirar uma foto com ele.
Gostava de dizer-te, Cesário, que arranjaste um nome fixe.
Ce sá ri o.
Queria também dizer-te que acordar sem coração é maravilhoso Cesário, é como um passou bem daqueles sem força. Não quer dizer nada, até se confunde com desprezo mas nada disso, é só um passou bem de pessoas que acordam sem coração.
Confesso-te Cesário, que se eu tivesse acordado com coração, acho que se te visse na rua com esse ar de enfezado que de certeza tinhas, sabes lá o que é o campo, sempre com esses desvios naturo-líricos em vez de ires pela rua direita da decisão, estava eu a dizer, Cesário, se eu tivesse acordado hoje com coração, ia ver-te e talvez desenvolver por ti qualquer coisa, fazer-te tão feliz que nem te punhas a escrever poemas, preferias ficar a ver televisão comigo, e não era ver pirilampos, era ver séries na Fox, entendes?
Mas descansa, eu cheira-me que estou à tua frente emocionalmente, aliás, sinto isso acerca de muita gente, deve ser característica de quem não tem coração.
Nada me ocorre de sentimental, absolutamente nada.
É um maravilhoso mundo que conheço agora, de grão com bacalhau e a hortelã vivaz na minha cozinha, e sou só uma rapariga que vive e janta sozinha.
Os dias em Junho são grandes e eu, a pensar no Cesário Verde, reflicto em como o campo e a cidade são diferentes, como eu sou diferente do campo agora nestes dias que acordo sem coração na cidade.
Penso também nas wee small hours do frank sinatra e arregaço as calças do pijama porque está mesmo calor.
No meu quintal de certeza que hoje há pirilampos.
Não me confundo, eu não estou "fria", nem "insensível", nada disso.
Quando eu digo que acordei sem coração, apenas quero dizer qualquer coisa como: acordei sem coração.
Perto da minha casa, está a rua Cesário Verde, e eu hoje pensei em ir lá tirar uma foto com ele.
Gostava de dizer-te, Cesário, que arranjaste um nome fixe.
Ce sá ri o.
Queria também dizer-te que acordar sem coração é maravilhoso Cesário, é como um passou bem daqueles sem força. Não quer dizer nada, até se confunde com desprezo mas nada disso, é só um passou bem de pessoas que acordam sem coração.
Confesso-te Cesário, que se eu tivesse acordado com coração, acho que se te visse na rua com esse ar de enfezado que de certeza tinhas, sabes lá o que é o campo, sempre com esses desvios naturo-líricos em vez de ires pela rua direita da decisão, estava eu a dizer, Cesário, se eu tivesse acordado hoje com coração, ia ver-te e talvez desenvolver por ti qualquer coisa, fazer-te tão feliz que nem te punhas a escrever poemas, preferias ficar a ver televisão comigo, e não era ver pirilampos, era ver séries na Fox, entendes?
Mas descansa, eu cheira-me que estou à tua frente emocionalmente, aliás, sinto isso acerca de muita gente, deve ser característica de quem não tem coração.
sábado, 6 de junho de 2009
"No mais profundo da condição humana, repousa a espera de uma presença" ou como a birra pariu uma lição
Eu sou tão egocêntrica que no meio de uma melancolia adolescente consigo achar que estou a reflectir todo um conceito.
Nestas últimas semanas calhou-me o "acolhimento".
Não posso deixar de recordar que muito do que sei sobre acolher devo-o a Taizé.
Tenho estado, ao contrário do que era costume há uns anos, do lado da pessoa que é preciso acolher.
E devo dizer que, por isso, sinto os olhos quentes e vontade de chorar e que choro, quando ninguem está a ver, quando eu própria menos espero.
Porque nos ultimos meses tive várias situações concretas em que me vi desacolhida, desabrigada, sozinha, a tentar integrar-me sem sucesso.
E comecei a reflectir sobre isto: será que eu noto quando há pessoas que é preciso acolher e eu nem ligo se se der o caso de eu nesse momento estar já integrada?
Pensei ainda: isto é mais uma daquelas coisas que faz parte da vida adulta.
O pior é quando eu faço tentativas de integração, respirando fundo, pensando em acções concretas para ultrapassar a minha timidez e depois a pessoa que tenho na frente nem entende que o que eu realmente estou a dizer é: leva-me contigo para esse espaço de pertença, eu quero entrar nessa rodinha e brincar a esse jogo.
Se calhar acolher é manter um espaço em branco no nosso coração para o outro, o estranho, o novo, o sozinho.
E esse espaço nunca se preeenche porque, depois do acolhimento, esse novo passa a estar com os velhos, com os habituais do nosso coração.
Por isso, eu peço hoje nas minhas orações para estar atenta a se aparecer o novo, o estranho, o que vem sempre mas se senta no banco do fundo, se aparecer alguém assim a precisar de um espaço vago no meu coração, que eu o veja e o acolha.
Não é que eu seja boa pessoa, nada disso, é só porque se eu fizer isso, já terei companhia caso me apeteça sair.
Nestas últimas semanas calhou-me o "acolhimento".
Não posso deixar de recordar que muito do que sei sobre acolher devo-o a Taizé.
Tenho estado, ao contrário do que era costume há uns anos, do lado da pessoa que é preciso acolher.
E devo dizer que, por isso, sinto os olhos quentes e vontade de chorar e que choro, quando ninguem está a ver, quando eu própria menos espero.
Porque nos ultimos meses tive várias situações concretas em que me vi desacolhida, desabrigada, sozinha, a tentar integrar-me sem sucesso.
E comecei a reflectir sobre isto: será que eu noto quando há pessoas que é preciso acolher e eu nem ligo se se der o caso de eu nesse momento estar já integrada?
Pensei ainda: isto é mais uma daquelas coisas que faz parte da vida adulta.
O pior é quando eu faço tentativas de integração, respirando fundo, pensando em acções concretas para ultrapassar a minha timidez e depois a pessoa que tenho na frente nem entende que o que eu realmente estou a dizer é: leva-me contigo para esse espaço de pertença, eu quero entrar nessa rodinha e brincar a esse jogo.
Se calhar acolher é manter um espaço em branco no nosso coração para o outro, o estranho, o novo, o sozinho.
E esse espaço nunca se preeenche porque, depois do acolhimento, esse novo passa a estar com os velhos, com os habituais do nosso coração.
Por isso, eu peço hoje nas minhas orações para estar atenta a se aparecer o novo, o estranho, o que vem sempre mas se senta no banco do fundo, se aparecer alguém assim a precisar de um espaço vago no meu coração, que eu o veja e o acolha.
Não é que eu seja boa pessoa, nada disso, é só porque se eu fizer isso, já terei companhia caso me apeteça sair.
domingo, 31 de maio de 2009
Um post também é um bom pretexto para não estudar
Isto escrevi domingo à noite:
- Só acho que guardares essas coisas, essas mágoas todas, no coração, não te faz bem nem é justo para ela.
Mas as crianças regressaram e eu não pude desenvolver esta ideia.
Fiquei preocupada, e ao telefone a minha mãe disse-me hoje para eu almoçar numa tasca e eu percebi que não havia comida suficiente para mim mas eu tinha achado que íamos almoçar todos, pelo menos uns 4 de nós.
A minha face ficou tensa, estava um dia de mar lindo.
Sonhei de manhã, deviam ser umas 8h30, que tinha um filho de óculos.
Estava na maternidade e tinha visitas mas não amava o pai do meu filho, um daqueles senhores de 40 anos que andam sempre de fato, e ele também não me amava.
Mas ao meu filho eu amava muito.
Durante o dia, esqueci este sonho.
No final da tarde, o sol batia no vitral e eu fiquei toda vermelha e roxa.
Sempre que, ao domingo, eu tenho estas coisas, estes morcegos que entram na minha sala, estas preocupações, eu tento fazer o que tenho a fazer
Isto escrevi hoje:
e não pensar mais nisso.
Tudo passa, afinal ser adulta é isto, este bocado de queijo podre no meu frigorífico sujo, estas calças com nódoas que não saem na máquina, afinal é só isto, guardar coisas podres faz mal, é como se o frigorífico fosse o coração.
23h05 e não há meio de terminar este relatório.
Hoje ouvi uma história engraçada:
Uma rapariga, que está a fazer mestrado em ciência política, estava a explicar ao namorado que vai ter uma prova em que tem que escolher 3 temas de entre 10 e discorrer acerca de cada um.
Ela disse-lhe que escolheu 3 temas, ligados à União Europeia e ao parlamentarismo, e o namorado perguntou-lhe porquê ela tinha escolhido esses temas.
- E aí eu disse-lhe que eles eram importantes para mim. E assim que acabei de dizer isto percebi que não eram nada importantes para mim.
E a rapariga começou a rir sem parar e eu também gargalhei.
Inicialmente foi para lhe fazer a vontade, porque não achei assim tanta graça mas depois ri mesmo com vontade.
Parlamentarismo?
União Europeia?
Temas importantes para mim?
Que história mais engraçada.
Isto vou escrever amanhã:
Que post mais inútil, que dia mais cansativo, que televisão mais apetecível, que coisas tão giras para fazer, não fosse eu disciplinada e era mais feliz, como os lirios do campo.
- Só acho que guardares essas coisas, essas mágoas todas, no coração, não te faz bem nem é justo para ela.
Mas as crianças regressaram e eu não pude desenvolver esta ideia.
Fiquei preocupada, e ao telefone a minha mãe disse-me hoje para eu almoçar numa tasca e eu percebi que não havia comida suficiente para mim mas eu tinha achado que íamos almoçar todos, pelo menos uns 4 de nós.
A minha face ficou tensa, estava um dia de mar lindo.
Sonhei de manhã, deviam ser umas 8h30, que tinha um filho de óculos.
Estava na maternidade e tinha visitas mas não amava o pai do meu filho, um daqueles senhores de 40 anos que andam sempre de fato, e ele também não me amava.
Mas ao meu filho eu amava muito.
Durante o dia, esqueci este sonho.
No final da tarde, o sol batia no vitral e eu fiquei toda vermelha e roxa.
Sempre que, ao domingo, eu tenho estas coisas, estes morcegos que entram na minha sala, estas preocupações, eu tento fazer o que tenho a fazer
Isto escrevi hoje:
e não pensar mais nisso.
Tudo passa, afinal ser adulta é isto, este bocado de queijo podre no meu frigorífico sujo, estas calças com nódoas que não saem na máquina, afinal é só isto, guardar coisas podres faz mal, é como se o frigorífico fosse o coração.
23h05 e não há meio de terminar este relatório.
Hoje ouvi uma história engraçada:
Uma rapariga, que está a fazer mestrado em ciência política, estava a explicar ao namorado que vai ter uma prova em que tem que escolher 3 temas de entre 10 e discorrer acerca de cada um.
Ela disse-lhe que escolheu 3 temas, ligados à União Europeia e ao parlamentarismo, e o namorado perguntou-lhe porquê ela tinha escolhido esses temas.
- E aí eu disse-lhe que eles eram importantes para mim. E assim que acabei de dizer isto percebi que não eram nada importantes para mim.
E a rapariga começou a rir sem parar e eu também gargalhei.
Inicialmente foi para lhe fazer a vontade, porque não achei assim tanta graça mas depois ri mesmo com vontade.
Parlamentarismo?
União Europeia?
Temas importantes para mim?
Que história mais engraçada.
Isto vou escrever amanhã:
Que post mais inútil, que dia mais cansativo, que televisão mais apetecível, que coisas tão giras para fazer, não fosse eu disciplinada e era mais feliz, como os lirios do campo.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Tonight we fly
Ia, de facto, a pensar no trabalho.
Entre outras coisas, ia a pensar no trabalho.
E surge no meu leitor uma canção de amor, até posso dizer qual, era o it's only time, dos Magnetic Fields.
Pus para a frente, nem cheguei ao fim dos primeiros versos.
Nem me apetecia ouvir nada de semelhante nem entendi muito bem como é que essa musica tinha ido parar ao meu leitor.
Acho que parei na esquina, numa esquina muito ventosa, antes da subida de inclinação ligeira e olhei para a árvore.
Dantes, quando estive apaixonada, esta árvore quis dizer muitas coisas.
Dantes, quando estive apaixonada, esta subida era a que guardava para uma canção não demasiado intensa para não entrar no meu local de trabalho deprimida.
Dantes, quando estive apaixonada, o meu leitor era cruel através de um shuffle demoníaco que me fazia hiperventilar só de pensar em certas situações que talvez pudessem acontecer.
Dantes, quando estive apaixonada, eu acreditava no destino e em sinais como cores de camisolas ou idas ao chats coincidentes na hora e na intenção ou mesmo tocar na rádio aquela musica da qual acho que falámos um dia ou que eu lhe ia falar um dia.
Dantes, quando estive apaixonada, davam-se diálogos incríveis na minha cabeça, verbalizados quando estava sozinha a fazer o jantar.
Dantes, quando estive apaixonada, o objecto do meu desejo estava tão bem definido que eu podia desenha-lo antes de adormecer, elencar dezenas de pormenores corporais a olhar para o tecto, a mexer no cabelo e a ouvir as notícias da meia noite na rádio, sem vontade de ler nada, só a pensar em como podia ocupar os dias inúteis em que não o via.
Dantes, quando estive apaixonada, os meus minutos cheiravam de outra maneira, era como ter uma rede de qualquer coisa intensa que sustentava as horas, uma rede que se via ao fundo das coisas todas da vida, ao fundo, por entre, por cima, mas estava lá, como qualquer coisa que ligava tudo numa malha harmoniosa e criativa.
Dantes, quando estive apaixonada, fui agora reler alguns mails, algumas mensagens, o meu vocabulário aumentou, eu aprendia muitas palavras e construía frases incríveis que partilhava com os meus amigos, num desabafo exagerado e ligeirmente melodramático.
Dantes, eu estava apaixonada e agora não estou.
E quando eu gostei dele(s), eu voava mais.
Entre outras coisas, ia a pensar no trabalho.
E surge no meu leitor uma canção de amor, até posso dizer qual, era o it's only time, dos Magnetic Fields.
Pus para a frente, nem cheguei ao fim dos primeiros versos.
Nem me apetecia ouvir nada de semelhante nem entendi muito bem como é que essa musica tinha ido parar ao meu leitor.
Acho que parei na esquina, numa esquina muito ventosa, antes da subida de inclinação ligeira e olhei para a árvore.
Dantes, quando estive apaixonada, esta árvore quis dizer muitas coisas.
Dantes, quando estive apaixonada, esta subida era a que guardava para uma canção não demasiado intensa para não entrar no meu local de trabalho deprimida.
Dantes, quando estive apaixonada, o meu leitor era cruel através de um shuffle demoníaco que me fazia hiperventilar só de pensar em certas situações que talvez pudessem acontecer.
Dantes, quando estive apaixonada, eu acreditava no destino e em sinais como cores de camisolas ou idas ao chats coincidentes na hora e na intenção ou mesmo tocar na rádio aquela musica da qual acho que falámos um dia ou que eu lhe ia falar um dia.
Dantes, quando estive apaixonada, davam-se diálogos incríveis na minha cabeça, verbalizados quando estava sozinha a fazer o jantar.
Dantes, quando estive apaixonada, o objecto do meu desejo estava tão bem definido que eu podia desenha-lo antes de adormecer, elencar dezenas de pormenores corporais a olhar para o tecto, a mexer no cabelo e a ouvir as notícias da meia noite na rádio, sem vontade de ler nada, só a pensar em como podia ocupar os dias inúteis em que não o via.
Dantes, quando estive apaixonada, os meus minutos cheiravam de outra maneira, era como ter uma rede de qualquer coisa intensa que sustentava as horas, uma rede que se via ao fundo das coisas todas da vida, ao fundo, por entre, por cima, mas estava lá, como qualquer coisa que ligava tudo numa malha harmoniosa e criativa.
Dantes, quando estive apaixonada, fui agora reler alguns mails, algumas mensagens, o meu vocabulário aumentou, eu aprendia muitas palavras e construía frases incríveis que partilhava com os meus amigos, num desabafo exagerado e ligeirmente melodramático.
Dantes, eu estava apaixonada e agora não estou.
E quando eu gostei dele(s), eu voava mais.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Procissão das velas numa folha de cálculo
Pronto, é muito simples.
Porque quando puxei o autoclismo olhando para o meu chichi amarelo limão, tudo ficou claro para mim.
É muito muito fácil:
pegamos numa folha de cálculo do excel.
Na primeira coluna colocamos os nossos problemas.
mas não são assim problemas do género "saúde", mas antes "dor na barriga" ou "tendinite".
isto é: interessa que sejam questões que perturbam o nosso quotidiano, de vária espécie, coisas que chateiam a nossa quarta à noite e o nosso domingo de manhã.
devem ser formulados numa frase clara, concretas.
não é preciso grande reflexão, basta escrever o que na nossa vida é uma coisa má: um problema.
Depois, a coluna a seguir é facultativa, é só para quem quiser uma tabela avançada.
aqui colocamos, numa escala de 1 a 20, o quanto o problema incomoda os nossos dias.
A seguir, para cada problema apontamos soluções, se as soubermos.
separadas por ponto e virgula, as soluções devem ser realistas, sem recorrer a milagres nem a deus, e a imaginação apenas serve na medida em que as soluções possam ser criativas.
importante: os problemas que não têm solução devem ficar com a célula em branco.
Então, na coluna seguinte, para os problemas com soluções, vamos discriminar as tarefas referentes a cada solução.
por exemplo:
problema rato na cozinha, gradação 7, solução veneno ou ratoeira, tarefa comprar veneno e pedir ratoeira e chouriço ao pai, data para conclusão quinta à noite.
coisas simples, coisas que nos vejamos a fazer no nosso dia a dia, sem pressão.
E a seguir colocamos uma data limite, uma data onde achamos que essa tarefa já estará cumprida.
o prazo pode ser até à nossa morte, mas caso seja um prazo mais curto, fazemos logo um lembrete no telemovel, no outlook, na agenda, no calendário da cozinha, qualquer coisa.
Então, com a tabela organizada, temos duas hipóteses:
para quem preencheu a coluna da gradação dos problemas, ordena-os por um ranking decrescente.
para os outros, mantêm tudo como está.
A primeira coisa que fazemos é: os problemas sem solução são eliminados.
Apenas estavam a ocupar o nosso espaço.
Podemos imprimir a tabela e colocá-la naqueles caderninhos que se usam agora, ou imprimir em letras pequenas, colocar uma fita cola à volta e guardar na carteira, ou colorir e pôr numa mica, podemos deixar só nos meus documentos.
A cada lembrete que tivermos, vamos ver se realizamos algumas das tarefas.
caso não tenhamos feito nada, há duas hipóteses:
ou se torna um problema sem solução e o eliminamos,
ou escrevemos novas tarefas com novas datas.
Simples.
Aceitação sem resignação.
E muita televisão.
Porque quando puxei o autoclismo olhando para o meu chichi amarelo limão, tudo ficou claro para mim.
É muito muito fácil:
pegamos numa folha de cálculo do excel.
Na primeira coluna colocamos os nossos problemas.
mas não são assim problemas do género "saúde", mas antes "dor na barriga" ou "tendinite".
isto é: interessa que sejam questões que perturbam o nosso quotidiano, de vária espécie, coisas que chateiam a nossa quarta à noite e o nosso domingo de manhã.
devem ser formulados numa frase clara, concretas.
não é preciso grande reflexão, basta escrever o que na nossa vida é uma coisa má: um problema.
Depois, a coluna a seguir é facultativa, é só para quem quiser uma tabela avançada.
aqui colocamos, numa escala de 1 a 20, o quanto o problema incomoda os nossos dias.
A seguir, para cada problema apontamos soluções, se as soubermos.
separadas por ponto e virgula, as soluções devem ser realistas, sem recorrer a milagres nem a deus, e a imaginação apenas serve na medida em que as soluções possam ser criativas.
importante: os problemas que não têm solução devem ficar com a célula em branco.
Então, na coluna seguinte, para os problemas com soluções, vamos discriminar as tarefas referentes a cada solução.
por exemplo:
problema rato na cozinha, gradação 7, solução veneno ou ratoeira, tarefa comprar veneno e pedir ratoeira e chouriço ao pai, data para conclusão quinta à noite.
coisas simples, coisas que nos vejamos a fazer no nosso dia a dia, sem pressão.
E a seguir colocamos uma data limite, uma data onde achamos que essa tarefa já estará cumprida.
o prazo pode ser até à nossa morte, mas caso seja um prazo mais curto, fazemos logo um lembrete no telemovel, no outlook, na agenda, no calendário da cozinha, qualquer coisa.
Então, com a tabela organizada, temos duas hipóteses:
para quem preencheu a coluna da gradação dos problemas, ordena-os por um ranking decrescente.
para os outros, mantêm tudo como está.
A primeira coisa que fazemos é: os problemas sem solução são eliminados.
Apenas estavam a ocupar o nosso espaço.
Podemos imprimir a tabela e colocá-la naqueles caderninhos que se usam agora, ou imprimir em letras pequenas, colocar uma fita cola à volta e guardar na carteira, ou colorir e pôr numa mica, podemos deixar só nos meus documentos.
A cada lembrete que tivermos, vamos ver se realizamos algumas das tarefas.
caso não tenhamos feito nada, há duas hipóteses:
ou se torna um problema sem solução e o eliminamos,
ou escrevemos novas tarefas com novas datas.
Simples.
Aceitação sem resignação.
E muita televisão.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Calado que nem um rato que hei-de envenener porque é o que faço a quem conspurca a minha vida

O que a minha avó se havia de rir comigo a contar como encontrei um rato no meu cesto do pão.
Eu havia de lhe contar com muitos pormenores, no jantar de anos dela, num restaurante qualquer da zona saloia.
E ela ia dizendo "ai que maluca", "ai que neta tão maluca que eu tenho" e depois ia dar-me conselhos valiosos para resolver a situação, que eu iria ignorar com certeza.
Ela sempre arranjava soluções para a vida.
No dia em que pessoas da minha família fazem anos, eu tento estar bem vestida.
Ontem vesti qualquer coisa, propositadamente mal pronta, porque a minha avó fazia anos mas já não está cá para o celebrar.
Ela havia de saber como matar o sacana do rato que ousou entrar na minha cozinha e comer das minhas bolachas.
Fechada na cozinha com ele, tentei esmaga-lo com o microondas, tentei afoga-lo com cilit bang espuma, tentei afugenta-lo com a vassoura.
Diz-me o meu pai ao telefone:
- Então ficaste abismada com um ratito? Não fiques que essas coisas também acontecem na cidade. Matar só em último caso, e se for para matar é melhor veneno que ratoeira, que na ratoeira eles depois não morrem logo e ficam ali a sofrer. Além de que já o espantaste de certeza.
As pessoas a quem contei a história do rato, para alem de se entre olharem fazendo aquele ar reprovador - a madalena é porca e por isso é que deu com um rato no cesto do pão - a maioria dessas pessoas achavam que eu devia ter apanhado o rato e posto na rua, vivo.
Irritei-me tanto que até pus uma das minhas colegas a chorar, que eu quando quero consigo ser mesmo muito má.
Só uma amiga minha me disse uma coisa muito sábia: tortura-o antes de morrer para ele servir de exemplo ao resto da tribo.
Claro que eu sou muito sensível aos animais - ainda na sexta o meu cão matou um dos gatinhos da minha gata Jonas e eu fiquei tão incomodada que até tremi.
Eu afeiçoou-me facilmente a tudo - desde couves a sapos.
Mas detesto aquelas pessoas como por exemplo o dono de uma loja de animais a quem fui perguntar desesperada se tinha veneno para ratos que me respondeu ofendido:
- Aqui só vendemos comida para eles viverem, não para morrerem.
E eu:
- Mas também vendem comida para quem os mata pelo prazer de matar, como os gatos. Ou a eutanásia é só para os humanos?
A minha avó nem sequer consideraria dar muita conversa a esta gente.
E a sua relação com a Terra não era uma relação pensada e reflectida sob o contexto das teorias ecológicas, mas antes uma relação diária e prática. Acho que ela fazia parte do ciclo natural das coisas da Terra. E isso nota-se no meu quintal desde que ela não está cá.
De veneno em punho, entrei na minha cozinha que tresandava a cilit bang, na companhia da minha mãe e da minha tia, que como tinham vindo a Lisboa fazer uma visita ao hospital, aproveitaram para me trazer veneno, e lá entramos as 3, no dia de anos da minha avó, na cozinha a tresandar a cilit bang, com o cesto do pão destruído pelos meus golpes de vassoura, duas filhas sem mãe, uma neta sem avó, a completar mais um ciclo da Natureza espalhando veneno por trás do fogão e junto à janela.
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