No casamento da minha irmã eu levava um vestido vermelho de cetim, muito justo.
Sim, levava.
Eu era a "irmã [solteira] da noiva", essa personagem mítica dos casamentos.
Bom, mas o que interessa é que, no dia do casamento, o meu pai viu-me a encolher a barriga - o vestido era justo e eu tinha vergonha da minha pancinha.
Disse-me:
- Se assumires que tens barriga, vais ver que ficas melhor.
Lembro-me disso muitas vezes, em relação a muita coisa.
Quando eu assumo as minhas pancinhas, sou muito mais feliz.
E mais livre.
domingo, 28 de setembro de 2008
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Na minha ingenuidade sem fim, eu às vezes tenho que me calar
Eu tinha 17 anos, era uma daquelas festas da escola secundária que havia na ericeira e vinhamos no autocarro para casa.
Eu vinha ao lado do Pedro, eu já gostava muito dele.
Ele estava bêbado, eu estava só contente por estar sentada ao pé dele.
O Pedro começou a cantar o Running to stand still dos U2 e, nessa altura, os U2 eram importantes para mim.
Ele disse:
- Não achas esta música bonita?
Eu disse que sim, toda contente por um bêbado estar a falar comigo, com o seu halito podre para cima de mim, prestes a vomitar.
Ele tocou-me na cara e encostou-se a mim, deu-me a mão.
Eu retraí-me e perguntei:
- Porque é que estás a fazer isso?
Estava ali a lavar a loiça e a tentar lembrar-me da resposta dele, mas não consigo.
Nem sei porque me lembrei deste episódio.
Sei que eu queria mesmo saber a razão pela qual ele se estava a aproximar - acho que era por causa do alcool.
E, em caso de duvida, pergunta-se.
Pergunta-se: posso gostar de ti mais do que devia?
Pergunta-se: posso ser sincera e usar o coração no lugar da boca quando falo contigo?
Pergunta-se: posso perguntar-te estas coisas todas?
Pergunta-se: posso saber porque estás a fazer isto?
É que às vezes podes ter bebido demais.
Eu vinha ao lado do Pedro, eu já gostava muito dele.
Ele estava bêbado, eu estava só contente por estar sentada ao pé dele.
O Pedro começou a cantar o Running to stand still dos U2 e, nessa altura, os U2 eram importantes para mim.
Ele disse:
- Não achas esta música bonita?
Eu disse que sim, toda contente por um bêbado estar a falar comigo, com o seu halito podre para cima de mim, prestes a vomitar.
Ele tocou-me na cara e encostou-se a mim, deu-me a mão.
Eu retraí-me e perguntei:
- Porque é que estás a fazer isso?
Estava ali a lavar a loiça e a tentar lembrar-me da resposta dele, mas não consigo.
Nem sei porque me lembrei deste episódio.
Sei que eu queria mesmo saber a razão pela qual ele se estava a aproximar - acho que era por causa do alcool.
E, em caso de duvida, pergunta-se.
Pergunta-se: posso gostar de ti mais do que devia?
Pergunta-se: posso ser sincera e usar o coração no lugar da boca quando falo contigo?
Pergunta-se: posso perguntar-te estas coisas todas?
Pergunta-se: posso saber porque estás a fazer isto?
É que às vezes podes ter bebido demais.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Assuntos do coração

Tenho um certo medo dado o desassossego em que vejo o meu coração.
Nas palmas das minhas mãos, ele não pára de tremer.
Senhor, que fostes enviado pelo Pai para salvar os corações atribulados, resgata agora o meu.
Preserva-o da turbulência destes dias tão inesperados, defende-o antes que ele fique irremediavelmente preso.
E se esta tentativa de melodrama não te comove, Senhor, olha bem para mim.
Achas que eu sei lidar com estas arrelias?
Achas que sei ter calma?
Achas?
Achas mesmo?
Olha para mim, olha aqui, olha que tirei o coração e está nas minhas mãos, e tento não o deixar cair enquanto agarro outras coisas.
Pega-lhe tu, Senhor dos corações apoquentados, pega no meu coração, segura-o um bocadinho, só até ao Natal.
Depois eu acho que consigo voltar a colocá-lo no peito.
Agora fica Tu com ele.
Porque se ele continua em meu poder, eu ofereço-o a quem o tocar.
E tenho um certo medo que lhe toquem.
A minha vida afinal é pouco glamorosa
Ontem foi muito bom ir de calças de ganga.
Hoje foi bom ter ido de vestido.
Era mais ou menos isto que eu devia dizer:
- Tenho um certo medo.
Dizia só assim, com firmeza e segurança:
- Tenho um certo medo.
E nem era preciso dizer muito mais, talvez a minha cara não me traísse e se notasse que estou a ser invadida por uma certa sensação de pânico.
Por isso eu devia dizer:
- Tenho um certo medo.
Mas não dizia mais nada.
Hoje nem vou dizer mais nada.
Hoje foi bom ter ido de vestido.
Era mais ou menos isto que eu devia dizer:
- Tenho um certo medo.
Dizia só assim, com firmeza e segurança:
- Tenho um certo medo.
E nem era preciso dizer muito mais, talvez a minha cara não me traísse e se notasse que estou a ser invadida por uma certa sensação de pânico.
Por isso eu devia dizer:
- Tenho um certo medo.
Mas não dizia mais nada.
Hoje nem vou dizer mais nada.
domingo, 21 de setembro de 2008
Este ano não vou vindimar
Passei o fim de semana a ouvir.
Eu também falei, mas acho que ouvi mais do que falei.
As pessoas precisam de falar.
As pessoas precisam de expiar.
As pessoas precisam de rematar.
Da última vez que fui buscar catateres para a minha bomba, enganei-me e trouxe uns com um fio (tubo) muito comprido. De manhã estou sempre emaranhada - sinto-me presa logo de manhã.
Disse ao meu irmão:
- Eu ainda não tive tempo para pensar sobre as consequências de estar sempre ligada a uma máquina
Ele disse:
- Se fosse eu, teria mantido as injecções.
Suspirei eu:
- Tenho saudades do meu psicologo.
Pela primeira vez em meses, senti-me um bocadinho saturada, irritadiça com a bomba.
Acho que foi por causa da extensão do tubo.
Tenho uma televisão e um rapaz está a dizer que sim com a cabeça.
E se ele tivesse uma bomba e uma avó doente, como será que ele fazia?
Estas pessoas assim, com tão bom aspecto, com um aspecto inteligente, sabem o que querem na vida, sabem coisas que eu não sei, sabem tanta coisa.
Amanhã é segunda e eu não vou usar vestido.
Por causa da bomba.
Pelas 12h30 eu verifico como estou.
Se afinal gostava de estar antes com um vestido.
Eu também falei, mas acho que ouvi mais do que falei.
As pessoas precisam de falar.
As pessoas precisam de expiar.
As pessoas precisam de rematar.
Da última vez que fui buscar catateres para a minha bomba, enganei-me e trouxe uns com um fio (tubo) muito comprido. De manhã estou sempre emaranhada - sinto-me presa logo de manhã.
Disse ao meu irmão:
- Eu ainda não tive tempo para pensar sobre as consequências de estar sempre ligada a uma máquina
Ele disse:
- Se fosse eu, teria mantido as injecções.
Suspirei eu:
- Tenho saudades do meu psicologo.
Pela primeira vez em meses, senti-me um bocadinho saturada, irritadiça com a bomba.
Acho que foi por causa da extensão do tubo.
Tenho uma televisão e um rapaz está a dizer que sim com a cabeça.
E se ele tivesse uma bomba e uma avó doente, como será que ele fazia?
Estas pessoas assim, com tão bom aspecto, com um aspecto inteligente, sabem o que querem na vida, sabem coisas que eu não sei, sabem tanta coisa.
Amanhã é segunda e eu não vou usar vestido.
Por causa da bomba.
Pelas 12h30 eu verifico como estou.
Se afinal gostava de estar antes com um vestido.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Se eu fosse um objecto seria ser uma má decisão
- Tomei uma decisão - disse-me ela, quando cheguei da minha hora de almoço.
Bati palmas e dei um gritinho: Yeah, adoro decisões. É de trabalho ou de vida?
- De vida, da minha vida, e vai começar em Novembro.
- Uau, data marcada e tudo...
Eu também tomo decisões mas quase nem se nota.
Este ano terminei uma relação, saí de casa e coloquei uma bomba infusora.
Ah, é verdade, e "decidi" terminar a tese.
Se olharem para mim, nem dão conta.
Sou uma excelente escondedora de coisas profundas.
Enquanto ela me contava da sua boa decisão, senti a determinação na sua voz.
Fiquei contente, gosto quando isto acontece.
Isto: alguém me contar que tomou uma decisão e de assim irem "acontecer" coisas, coisas decididas, somos seres que determinam coisas, somos mulheres na flor da idade, sabemos o que queremos e se é Novembro ou Julho.
Acho isso o máximo, entusiasma-me, aproxima-me de Deus.
Outra coisa que tenho vindo a pensar, às vezes, nem sempre mas algumas vezes, é que se fizermos alguma acção, temos mais hipoteses de obter uma reacção.
A minha travessura matinal (que não devia ser feita assim tão cedo, quando eu ainda estou sem filtro algum e portanto mais apta a fazer merda) foi executada porque eu tinha tomado a decisão que a ia fazer.
Tive alguns sinais para não fazer mas fiz.
Por isso, vamos Benfica, ainda temos a segunda parte para jogar em casa.
Eu acredito, eu decido.
Mas eu tenho esta coisa que acho que a faixa da esquerda não é para mim.
Eu não me sinto como pertencente ao grupo de pessoas que habitam a faixa da esquerda.
Tudo bem, eu vou lá de vez em quando, eu finjo que até sou de lá, faço um certo ar como se fosse normal eu lá estar mas a verdade é que eu a faixa da esquerda não é o meu habitat natural.
Hoje é quinta.
Um dia a seguir ao outro.
Mais uma horita e tal e passamos a sexta.
Bati palmas e dei um gritinho: Yeah, adoro decisões. É de trabalho ou de vida?
- De vida, da minha vida, e vai começar em Novembro.
- Uau, data marcada e tudo...
Eu também tomo decisões mas quase nem se nota.
Este ano terminei uma relação, saí de casa e coloquei uma bomba infusora.
Ah, é verdade, e "decidi" terminar a tese.
Se olharem para mim, nem dão conta.
Sou uma excelente escondedora de coisas profundas.
Enquanto ela me contava da sua boa decisão, senti a determinação na sua voz.
Fiquei contente, gosto quando isto acontece.
Isto: alguém me contar que tomou uma decisão e de assim irem "acontecer" coisas, coisas decididas, somos seres que determinam coisas, somos mulheres na flor da idade, sabemos o que queremos e se é Novembro ou Julho.
Acho isso o máximo, entusiasma-me, aproxima-me de Deus.
Outra coisa que tenho vindo a pensar, às vezes, nem sempre mas algumas vezes, é que se fizermos alguma acção, temos mais hipoteses de obter uma reacção.
A minha travessura matinal (que não devia ser feita assim tão cedo, quando eu ainda estou sem filtro algum e portanto mais apta a fazer merda) foi executada porque eu tinha tomado a decisão que a ia fazer.
Tive alguns sinais para não fazer mas fiz.
Por isso, vamos Benfica, ainda temos a segunda parte para jogar em casa.
Eu acredito, eu decido.
Mas eu tenho esta coisa que acho que a faixa da esquerda não é para mim.
Eu não me sinto como pertencente ao grupo de pessoas que habitam a faixa da esquerda.
Tudo bem, eu vou lá de vez em quando, eu finjo que até sou de lá, faço um certo ar como se fosse normal eu lá estar mas a verdade é que eu a faixa da esquerda não é o meu habitat natural.
Hoje é quinta.
Um dia a seguir ao outro.
Mais uma horita e tal e passamos a sexta.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Como eu não gosto de solas finas não as devia usar não é?
Dormi mal.
Foi bom ter-me lembrado de encher a garrafa de água e tê-la perto da cabeceira.
Desde que a minha avó adoeceu eu vivo mesmo dia a dia.
Isto é: não penso com muito avanço e digo muitas vezes para mim própria "amanhã logo se vê".
O tempo foi passando, e estou já a fazer uma revisão final da tese.
Revisão toda mal feita, a minha tese precisava de 5 minutos à Benfica para deixar de ser mediana para passar a ser uma coisa de que me orgulhe de ter feito.
Tenho conhecido muitas idosas, amigas que a minha avó vai fazendo no hospital.
A dona Guilhermina estava sempre a despir-se, explicou-me que o pai dela estava nas filmagens, e ia chegar não tarda nada. Disse-me que tinha 17 anos e que a irmã mais velha dela tinha 16.
Teve alta ontem, hoje já havia novas idosas mas acabei por não conhecer nenhuma e fixei-me no objectivo de tentar fazer com que a minha avó não se incompatibilizasse com as auxiliares nem com as enfermeiras.
-A avó não pode ser a arruaceira da Medicina 3, acha que isso está bem?
Mas vejo-me a dizer isto a alguem muito fragilizado e acrescento logo a seguir:
- Mas se vir que a estão a tratar mal, também não se deixe ficar.
A dona Anastácia, que estava caída com uma hipoglicemia daquelas, acordou e acenou com a cabeça:
- A sua neta tem razão.
Entretanto olharam as duas para os meus pés e viram que eu tinha sandálias.
Chegaram os meus tios, eu vim embora.
Eu hoje vi que estava assim meio cinzento mas mesmo assim levei as sandálias de sola fina.
Ia caindo duas vezes, não foi agradável.
Eu prefiro solas fortes, onde a planta do pé não sinta o chão mas as minhas sandálias boas cheiram muito mal, e tenho medo que alguem perceba que vem de mim.
Não sou assim tão moderna nem tão segura.
A lida da casa está toda em atraso e tenho muitas saudades de costurar.

A meio da tarde, eu lembrei-me de uma musica para cantarolar: Dona, dos Roupa Nova
Tan, tan, tan, batem na porta
Não precisa ver quem é
Pra sentir a impaciência
Do teu pulso de mulher
A letra é muito intrigante e eu sempre achei que os senhores se estavam a referir a uma mulher chamada Dona ou então a Nossa Senhora.
Amanhã é quinta.
Talvez faça uma travessura para animar o dia.
Foi bom ter-me lembrado de encher a garrafa de água e tê-la perto da cabeceira.
Desde que a minha avó adoeceu eu vivo mesmo dia a dia.
Isto é: não penso com muito avanço e digo muitas vezes para mim própria "amanhã logo se vê".
O tempo foi passando, e estou já a fazer uma revisão final da tese.
Revisão toda mal feita, a minha tese precisava de 5 minutos à Benfica para deixar de ser mediana para passar a ser uma coisa de que me orgulhe de ter feito.
Tenho conhecido muitas idosas, amigas que a minha avó vai fazendo no hospital.
A dona Guilhermina estava sempre a despir-se, explicou-me que o pai dela estava nas filmagens, e ia chegar não tarda nada. Disse-me que tinha 17 anos e que a irmã mais velha dela tinha 16.
Teve alta ontem, hoje já havia novas idosas mas acabei por não conhecer nenhuma e fixei-me no objectivo de tentar fazer com que a minha avó não se incompatibilizasse com as auxiliares nem com as enfermeiras.
-A avó não pode ser a arruaceira da Medicina 3, acha que isso está bem?
Mas vejo-me a dizer isto a alguem muito fragilizado e acrescento logo a seguir:
- Mas se vir que a estão a tratar mal, também não se deixe ficar.
A dona Anastácia, que estava caída com uma hipoglicemia daquelas, acordou e acenou com a cabeça:
- A sua neta tem razão.
Entretanto olharam as duas para os meus pés e viram que eu tinha sandálias.
Chegaram os meus tios, eu vim embora.
Eu hoje vi que estava assim meio cinzento mas mesmo assim levei as sandálias de sola fina.
Ia caindo duas vezes, não foi agradável.
Eu prefiro solas fortes, onde a planta do pé não sinta o chão mas as minhas sandálias boas cheiram muito mal, e tenho medo que alguem perceba que vem de mim.
Não sou assim tão moderna nem tão segura.
A lida da casa está toda em atraso e tenho muitas saudades de costurar.

A meio da tarde, eu lembrei-me de uma musica para cantarolar: Dona, dos Roupa Nova
Tan, tan, tan, batem na porta
Não precisa ver quem é
Pra sentir a impaciência
Do teu pulso de mulher
A letra é muito intrigante e eu sempre achei que os senhores se estavam a referir a uma mulher chamada Dona ou então a Nossa Senhora.
Amanhã é quinta.
Talvez faça uma travessura para animar o dia.
domingo, 14 de setembro de 2008
Lisboeta alfacinha come merda de galinha
Tenho a impressão que estamos em Maio.
Tenho esta impressão há meses, desde Abril, talvez.
E se me apaixonasse loucamente?
Assim andava entretida com outras coisas sem ser as que ando agora.
Mas se calhar estou numa "daquelas alturas" em que não me encontro disponível para amar.
Domingo à noite e não gosto de passar a ferro.
Contudo, gosto de marmelos cozidos, de chá de hortelã pimenta e de beijinhos.
Se agora eu me apaixonasse, talvez não fosse por um idiota como da última vez.
Mas nem consigo pensar nisso sem um certo asco.
Vou aproveitar agora para ligar o ferro e passar as peças que acho que me sentirei desconfortável a vestir se não estiverem engomadas.
Vou aproveitar agora para não me precipitar em relações parvas, em flirts inconsequentes, em mini desgostos, que saem com água como se fossem shampoo.
Nunca deixarei de ser uma saloia, a perguntar por segorelha em todo o lado para fazer sopa de feijão verde.
Estamos em Setembro não é?
Por isso se calhar o melhor é esquecer ir passar a ferro e ir antes cortar as unhas.
Porque hoje também já não me devo ir apaixonar, ainda bem porque acho que o jantar não me caiu lá muito bem.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
A minha mãe também é filha e eu também não estou bem
No meio de todo aquele sábado horrível estava um vestido de noiva no quarto onde a minha irmã também se vestiu para o seu casamento.
Mas não havia flores cor de rosa no quintal que eu pudesse apanhar para fazer a jarra.
Fiquei encostada à escada do sótão, a que tem a glicínia, e chorei.
Chorei porque tive medo, eu acho que o pior é o medo que temos de que as pessoas que gostamos morram misturado com o medo que temos de morrer.
Só havia dálias, algumas muito bonitas, apanhei-as mas a jarra era muito grande.
Eu tratei de tudo enquanto estavam no hospital, eu só parei à noite porque a noiva não tinha a culpa, pensei eu: ela coitada não tem culpa, vai-se casar e sabe que a vida não é fácil, merece que eu varra o quintal e limpe a casa, merece que eu corra a comprar flores, que eu decore o carro do meu pai, todo riscado e amolgado, merece, claro que sim.
O vestido lá pendurado não me dizia grande coisa, nunca me comovo com vestidos de noiva, acho eu.
No domingo de manhã cedo, enquanto fui buscar o bouquet, ainda tentei ir à farmácia, antevendo que ia ficar sem insulina mas estava tudo esgotado ou fechado.
Isto não vai correr bem, pensei eu, enquanto tirava fotografias à noiva e aos padrinhos, perto dos malmequeres altos e amarelos.
Tirei a bomba, andei sem ela durante o dia, voltei às injecções com nph e achei que ia conseguir controlar a glicémia mas quando dei por mim, pelas 14h já estava cheia de nauseas e a pensar: o melhor é eu ir arranjar uma farmácia....
Ora a boda foi na Cachoeira, uma aldeia bem dentro dos montes da região oeste, e saí do casamento discretamente, fazendo a minha irmã prometer que não dizia à minha mãe que eu estava totalmente descompensada.
Depois de 3 farmácias com a insulina esgotada e de bastantes km percorridos, dei por mim no meio de Odivelas, num bairro refundido, de fato de casamento, uma merda de uns saltos de agulha e um vestido que a minha mãe me emprestou de seda verde, e arranjei finalmente insulina.
Regressei a casa... quer dizer, ao quintal, não à minha casa nova mas a casa, onde tinha as minhas coisas.
Pus a bomba e fiz a correcção - aterrei no sofá pelas 19h, não me lembro de grande coisa, só do meu irmão chegar e dizer qualquer coisa, que eu tinha que tomar conta de mim e que não devia ter ido sozinha.
- Provaste o porco grelhado? perguntei
- Sim, estava bom.
- Pois, eu ainda estou agoniada mas estou bem.
Levantei-me e fui ouvir a minha tia a contar da tarde dela no hospital e o domingo acabou com a minha mãe a ser filha e eu a ser doente.
Mas não havia flores cor de rosa no quintal que eu pudesse apanhar para fazer a jarra.
Fiquei encostada à escada do sótão, a que tem a glicínia, e chorei.
Chorei porque tive medo, eu acho que o pior é o medo que temos de que as pessoas que gostamos morram misturado com o medo que temos de morrer.
Só havia dálias, algumas muito bonitas, apanhei-as mas a jarra era muito grande.
Eu tratei de tudo enquanto estavam no hospital, eu só parei à noite porque a noiva não tinha a culpa, pensei eu: ela coitada não tem culpa, vai-se casar e sabe que a vida não é fácil, merece que eu varra o quintal e limpe a casa, merece que eu corra a comprar flores, que eu decore o carro do meu pai, todo riscado e amolgado, merece, claro que sim.
O vestido lá pendurado não me dizia grande coisa, nunca me comovo com vestidos de noiva, acho eu.
No domingo de manhã cedo, enquanto fui buscar o bouquet, ainda tentei ir à farmácia, antevendo que ia ficar sem insulina mas estava tudo esgotado ou fechado.
Isto não vai correr bem, pensei eu, enquanto tirava fotografias à noiva e aos padrinhos, perto dos malmequeres altos e amarelos.
Tirei a bomba, andei sem ela durante o dia, voltei às injecções com nph e achei que ia conseguir controlar a glicémia mas quando dei por mim, pelas 14h já estava cheia de nauseas e a pensar: o melhor é eu ir arranjar uma farmácia....
Ora a boda foi na Cachoeira, uma aldeia bem dentro dos montes da região oeste, e saí do casamento discretamente, fazendo a minha irmã prometer que não dizia à minha mãe que eu estava totalmente descompensada.
Depois de 3 farmácias com a insulina esgotada e de bastantes km percorridos, dei por mim no meio de Odivelas, num bairro refundido, de fato de casamento, uma merda de uns saltos de agulha e um vestido que a minha mãe me emprestou de seda verde, e arranjei finalmente insulina.
Regressei a casa... quer dizer, ao quintal, não à minha casa nova mas a casa, onde tinha as minhas coisas.
Pus a bomba e fiz a correcção - aterrei no sofá pelas 19h, não me lembro de grande coisa, só do meu irmão chegar e dizer qualquer coisa, que eu tinha que tomar conta de mim e que não devia ter ido sozinha.
- Provaste o porco grelhado? perguntei
- Sim, estava bom.
- Pois, eu ainda estou agoniada mas estou bem.
Levantei-me e fui ouvir a minha tia a contar da tarde dela no hospital e o domingo acabou com a minha mãe a ser filha e eu a ser doente.
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