- Eu levo-te aos Olivais para entenderes como se engata, mas tens que ir vestida como eu mandar! Mostrar mais as pernas, e um bocado mais das mamas, assim como quem diz "anda cá tocar-me". Se virmos aí alguma dessas que andam assim, eu mostro-te como é.
Contou-me algumas piadas porcas, alguns ditos populares ordinários, mostrou-me mails e mais mails de miúdas com as quais ele se corresponde, utilizando, mais ou menos, sempre a mesma conversa. Em geral elas não caem, diz-me ele, mas há uma delas que se apaixonou loucamente, deixando o namorado e a casa que tinha comprado e estava a mobilar para se vir encontrar com ele.
Os mails dela são ela a confessar como nunca sentiu nada assim. Ele diz que esta conversa dela o está a fazer ter cada vez menos interesse mas que...
- Eu sou ela. Eu costumo ser ela, costumo ser o que está apaixonado. Por isso, agora que estou eu numa situação de poder, vou aproveitar. É a primeira vez que sou eu que tenho o poder. E ela tem muita sorte porque eu sou boa pessoa, se eu fosse outro abusava do corpo dela de todas as maneiras possíveis. Ela tem muita sorte porque eu trato bem as pessoas. Além de que eu nem sei se ela deixou mesmo o outro gajo, ela também pode estar a mentir, e querer um amante. Pelas costas dos outros, vêem-se as nossas...
Eu suspirei e disse:
- Ao menos usa protecção, nessas tuas aventuras.
Esta frase deu origem a um longo monólogo sobre experiências sexuais, que eu prefiro guardar para quando tiver um blog só sobre isso.
É que, às tantas, eu já estava nauseada e então vasculhei no meu baú de pensamentos melancólicos - caixa onde guardo várias coisas que me vão surgindo e que ali ficam para eu ir pensando nelas quando, por exemplo, não estou com vontade de falar sobre engates e preservativos.
Ocupei a minha cabeça com dois outros pensamentos, a saber: a autocomiseração e a vergonha de gostar.
Autocomiseração:
não tenho grande coisa a dizer, apenas acho que às vezes - pronto, muitas vezes - tenho esse problema, o qual me bloqueia. Portanto, vou escrever num papelinho que um dos meus compromissos para este Advento será deixar de ter tanta pena de mim. Isto terá também consequências sobre o meu próximo, portanto vou considerá-lo como um compromisso para comigo e para com os outros, já que, reduzindo a minha autocomiseração, terei mais comiseração para dar aos outros.
Vergonha de gostar dos outros:
novamente, também não tenho grande coisa a dizer. Lembrei-me disto porque às vezes eu tenho tanta vergonha de gostar tanto das pessoas que as começo a detestar. Assim, vou escrever num outro papelinho, será o meu segundo compromisso neste Advento, que vou aceitar amar.
Estes papelinhos, vou enrolá-los e serão as palhinhas para o menino Jesus.
Maranatha!
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Country feedback: esta música faz-me sempre tremer
É logo nas primeiras páginas que ele fala de como se anda a esquecer das coisas.
Velchaninov diz, mais ou menos, que apagou coisas da memória e que isso está relacionado com o seu estado depressivo.
Pois, pensei eu, é isto mesmo.
Apagar coisas da memória.
Eu faço isso.
Foi como quando a Licinha partiu uma pata e eu perguntei mas como é que isto aconteceu e a minha tia não sabia, não se lembrava.
E a minha mãe, sentada na beirinha da poltrona azul, dizia-me, de olhos fitos no tapete, sou eu que vou ter que sozinha arranjar uma forma de conviver com isto.
O livro, a vida real, e a minha imaginação prodigiosa, levam-me a concluir que, muito provavelmente, eu arranjei uma forma de lidar com certos acontecimentos - em especial traumas amorosos e problemas de relacionamento - apagando-os por completo da minha memória.
Apago e, se por um acaso qualquer, como uma ida ao facebook ou um cheiro num casaco ou mesmo uma conversa, eu recordo por momentos o que aconteceu é tudo muito estranho e assustador.
E mais: se eu me ponho a tentar lembrar de muita coisa, por exemplo, no que diz respeito a relações amorosas, eles, os objectos, misturam-se num só rapaz, num só corpo, com a mesma barriga e a mesma pele, os braços, as vozes ao ouvido, e tudo o resto, é uma grande mistura e eu já não sei que parte pertence a que corpo e a que época da minha vida.
Agora.... quer isto dizer que não sou uma cabra rancorosa?
Claro que não quer dizer nada disso, porque eu sou uma cabra rancorosa!
E tenho dias mundiais da sinceridade, em que, com requintes de malvadez, atinjo todos os que me magoaram com tiros certeiros ao rim, onde dói mais, pois a minha inteligência emocional também me habilita a ser má.
A Licinha foi atropelada pelo aspirador Rainbow e só acabou o tratamento ontem.
Foi isso que aconteceu.
Velchaninov diz, mais ou menos, que apagou coisas da memória e que isso está relacionado com o seu estado depressivo.
Pois, pensei eu, é isto mesmo.
Apagar coisas da memória.
Eu faço isso.
Foi como quando a Licinha partiu uma pata e eu perguntei mas como é que isto aconteceu e a minha tia não sabia, não se lembrava.
E a minha mãe, sentada na beirinha da poltrona azul, dizia-me, de olhos fitos no tapete, sou eu que vou ter que sozinha arranjar uma forma de conviver com isto.
O livro, a vida real, e a minha imaginação prodigiosa, levam-me a concluir que, muito provavelmente, eu arranjei uma forma de lidar com certos acontecimentos - em especial traumas amorosos e problemas de relacionamento - apagando-os por completo da minha memória.
Apago e, se por um acaso qualquer, como uma ida ao facebook ou um cheiro num casaco ou mesmo uma conversa, eu recordo por momentos o que aconteceu é tudo muito estranho e assustador.
E mais: se eu me ponho a tentar lembrar de muita coisa, por exemplo, no que diz respeito a relações amorosas, eles, os objectos, misturam-se num só rapaz, num só corpo, com a mesma barriga e a mesma pele, os braços, as vozes ao ouvido, e tudo o resto, é uma grande mistura e eu já não sei que parte pertence a que corpo e a que época da minha vida.
Agora.... quer isto dizer que não sou uma cabra rancorosa?
Claro que não quer dizer nada disso, porque eu sou uma cabra rancorosa!
E tenho dias mundiais da sinceridade, em que, com requintes de malvadez, atinjo todos os que me magoaram com tiros certeiros ao rim, onde dói mais, pois a minha inteligência emocional também me habilita a ser má.
A Licinha foi atropelada pelo aspirador Rainbow e só acabou o tratamento ontem.
Foi isso que aconteceu.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Mudando agora de assunto: e a queda do muro de Berlim?
Ele disse-me uma vez que eu devia tirar um retrato para registar a minha bela juventude.
Eu primeiro achei uma idiotice que resolvi ignorar mas lembro-me às vezes dessa sugestão.
Eu vi uma pessoa morrer há um ano atrás.
Vi o corpo a morrer hora a hora.
E era uma pessoa que eu amava.
Hoje ainda não consigo falar nisso.
Em 1986, e nos anos que se seguiram, havia muitos jogos e livros para crianças relativos à Europa.
Num dos natais desses anos, eu ganhei um livro sobre a construção da Europa, onde havia umas folhas em branco para colar fotos e registar acontecimentos europeus.
De maneira que, quando o muro de Berlim caiu, em 1989, eu recortei uma notícia de jornal e colei nesse livro.
Tinha 8 anos e lembro-me que me sentei no corredor da minha casa a fazer isso. Foi divertido porque recortar era uma actividade que sempre me agradou.
Eu gostava de ter fotos minhas que registassem coisas boas.
Fui eu que escolhi a foto que está na campa da minha avó.
É uma foto tirada no casamento da minha irmã, tirada minutos após a minha irmã nos ter dado a todas as mulheres da família um raminho de flores, juntamo-nos ao pé do canteiro de flores perto do baloiço e lá estamos nós, muito felizes.
Penso que é a única foto no cemitério em que o defunto está a rir.
A 9 de Novembro de 2007, pelas 17h, nascia a minha segunda sobrinha.
E há uma foto, tirada umas duas horas depois, em que estou eu, a minha irmã, a minha sobrinha mais velha e a recém nascida, todas felizes, a olharmos umas para as outras e para o bébé ao mesmo tempo.
Eu pergunto à minha médica:
- Mas se calhar isso onde me dói são pontos sensíveis que doem a toda a gente se forem pressionados.
- Não, não é suposto doer. Só te doem a ti, porque estão inflamados.
A vida não é suposto doer, a não ser que esteja ferida.
Eu primeiro achei uma idiotice que resolvi ignorar mas lembro-me às vezes dessa sugestão.
Eu vi uma pessoa morrer há um ano atrás.
Vi o corpo a morrer hora a hora.
E era uma pessoa que eu amava.
Hoje ainda não consigo falar nisso.
Em 1986, e nos anos que se seguiram, havia muitos jogos e livros para crianças relativos à Europa.
Num dos natais desses anos, eu ganhei um livro sobre a construção da Europa, onde havia umas folhas em branco para colar fotos e registar acontecimentos europeus.
De maneira que, quando o muro de Berlim caiu, em 1989, eu recortei uma notícia de jornal e colei nesse livro.
Tinha 8 anos e lembro-me que me sentei no corredor da minha casa a fazer isso. Foi divertido porque recortar era uma actividade que sempre me agradou.
Eu gostava de ter fotos minhas que registassem coisas boas.
Fui eu que escolhi a foto que está na campa da minha avó.
É uma foto tirada no casamento da minha irmã, tirada minutos após a minha irmã nos ter dado a todas as mulheres da família um raminho de flores, juntamo-nos ao pé do canteiro de flores perto do baloiço e lá estamos nós, muito felizes.
Penso que é a única foto no cemitério em que o defunto está a rir.
A 9 de Novembro de 2007, pelas 17h, nascia a minha segunda sobrinha.
E há uma foto, tirada umas duas horas depois, em que estou eu, a minha irmã, a minha sobrinha mais velha e a recém nascida, todas felizes, a olharmos umas para as outras e para o bébé ao mesmo tempo.
Eu pergunto à minha médica:
- Mas se calhar isso onde me dói são pontos sensíveis que doem a toda a gente se forem pressionados.
- Não, não é suposto doer. Só te doem a ti, porque estão inflamados.
A vida não é suposto doer, a não ser que esteja ferida.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Chattanooga Choo Choo
Eles dizem-me muitas vezes que eu só os estou a deixar porque ainda não percebi o que é o amor.
Daí a começarem a dizer que eu ando à procura do príncipe encantado vão uns 15 minutos se estivermos num sítio agradável. Mas se estivermos ao ar livre, e estiver frio, eles demoram menos que 5 minutos a falar nisso.
Penso que é porque gostam muito de mim.
E eu sei bem o que é isso de gostar de alguem: é um martírio. Ficamos totalmente desgovernados.
Ser correspondida torna-se numa obsessão, vive-se num desespero e numa inquietação permanentes e há um ponto de tensão - que mais tarde reconhecemos como o ponto da estupidez - em que nos parece que ofender o outro é o passo mais lógico a seguir.
E eu sou insegura e quando me dizem que sabem o que é o amor eu penso: bom, eu faço uma ideia do que seja o amor mas esta pessoa que está diante de mim parece ter muito mais certezas que eu por isso até se calhar o melhor é ouvi-lo com atenção.
Mas depois, possivelmente quando já estão muito fartos de "lutar contra mim" (expressão que também é frequente usarem comigo), falam nisso do príncipe encantado, com um tom ligeiramente insultuoso e com alguma arrogância à mistura, como se me estivessem a dizer:
Tu achas que vais encontrar melhor do que isto que nós temos mas não vais.
O problema não está no facto de não gostares de mim, o problema está em achares que sabes do que gostas.
Mas sei: gosto do Glenn Miller!
Daí a começarem a dizer que eu ando à procura do príncipe encantado vão uns 15 minutos se estivermos num sítio agradável. Mas se estivermos ao ar livre, e estiver frio, eles demoram menos que 5 minutos a falar nisso.
Penso que é porque gostam muito de mim.
E eu sei bem o que é isso de gostar de alguem: é um martírio. Ficamos totalmente desgovernados.
Ser correspondida torna-se numa obsessão, vive-se num desespero e numa inquietação permanentes e há um ponto de tensão - que mais tarde reconhecemos como o ponto da estupidez - em que nos parece que ofender o outro é o passo mais lógico a seguir.
E eu sou insegura e quando me dizem que sabem o que é o amor eu penso: bom, eu faço uma ideia do que seja o amor mas esta pessoa que está diante de mim parece ter muito mais certezas que eu por isso até se calhar o melhor é ouvi-lo com atenção.
Mas depois, possivelmente quando já estão muito fartos de "lutar contra mim" (expressão que também é frequente usarem comigo), falam nisso do príncipe encantado, com um tom ligeiramente insultuoso e com alguma arrogância à mistura, como se me estivessem a dizer:
Tu achas que vais encontrar melhor do que isto que nós temos mas não vais.
O problema não está no facto de não gostares de mim, o problema está em achares que sabes do que gostas.
Mas sei: gosto do Glenn Miller!
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
A triste morte da gata dos telhados
Quando subimos no elevador, eu descobri uma coisa sobre mim.
Eu não resisto à carícia, à festinha e ao abraço.
Lembrei-me do final de tarde, 35º lá no lago onde se meditava em silêncio e ele me tentava engatar, e eu não sabia bem o que fazer.
Foi muito fácil para ele estender-me a mão e puxar-me para ele, para um beijo.
Não ofereci qualquer resistência.
Agora que penso nisso: porque não ofereci eu resistência?
Tento lembrar-me de mais situações idênticas, essas situações de primeiros toques, de primeiros abraços, de beijos e essas coisas e vejo-me sempre dócil, mansa, fácil.
Engraçado porque depois essas mesmas pessoas que facilmente me agarraram são as que me acusam de ser fugidia e distante, esquiva e ausente.
Então eu penso: se calhar é isto que é ser carente, é não oferecer resistência a qualquer carícia, sem querer saber de quem a oferece.
Se calhar é isso: os rapazes apaixonam-se por mim e eu, caso me sinta um pouquinho atraída, cá vai disto, e tento apaixonar-me também, facilmente me entregando a qualquer idiota que se apresente num determinado momento da minha vida em que, por acaso, eu até estou aberta a pensar que posso gostar de alguém.
Claro, dir-me-ão que tem a ver com a falta de auto estima: como se eu achasse tão incrível alguém gostar de mim, que me precipito a ficar em dívida com essa pessoa, dando-me como penhor do amor que me é oferecido.
Pois se é oferecido Madalena, porque tens tu que o pagar?
Hoje, um parvalhão irritante tocou-me na cara. Parece-me que sem qualquer intenção sexual, foi apenas uma coisa que fez porque às vezes as pessoas acham que eu sou uma querida.
E eu não lhe bati nem lhe ralhei.
Não o esmurrei.
Não o pontapeei.
Não lhe dei nenhum estalo nem o pus na ordem.
Não me conhece de lado nenhum, não me toca assim na cara, nas minhas sensíveis bochechas, não é?
Mas percebi que, através daquela situação, Deus quis que eu descobrisse mais uma coisa sobre mim.
A gatinha dos telhados era uma selvagem como nunca se viu no quintal quando, há mais de 15 anos, foi morar connosco.
Era muito bonita mas pouco domesticável.
Quando o cão Alex veio também para o quintal, a sua loucura afastou a gatinha para os telhados, onde passou muito tempo da sua vida.
À medida que os anos passavam, ela tornava-se cada vez mais meiga e feliz.
Os outros gatos iam e vinham mas ela nunca ia embora, sempre consistente com o seu percurso de vida, crescendo de uma juventude um pouco agressiva para amadurecer na mansidão, sem perder a sua postura de gata do campo.
Da última vez que a vi, alertaram-me que ela devia estar a morrer.
Fui para o pé dela e dei-lhe muitas festinhas e ela sorriu-me.
Sabíamos, eu e ela, que era uma despedida poir ela devia ir morrer longe dos donos, como fazem os gatos.
Segundo me contou o meu pai, foi a enxurrada que a matou.
- Ela não se aguentou com a chuva, a tonta não veio para o alpendre e a força da chuva levou-a. A tonta.
O meu pai acha sempre que é possível a salvação.
Deu com a gatinha na manhã seguinte do temporal, junto de um poste, na rua.
Morta.
Eu não resisto à carícia, à festinha e ao abraço.
Lembrei-me do final de tarde, 35º lá no lago onde se meditava em silêncio e ele me tentava engatar, e eu não sabia bem o que fazer.
Foi muito fácil para ele estender-me a mão e puxar-me para ele, para um beijo.
Não ofereci qualquer resistência.
Agora que penso nisso: porque não ofereci eu resistência?
Tento lembrar-me de mais situações idênticas, essas situações de primeiros toques, de primeiros abraços, de beijos e essas coisas e vejo-me sempre dócil, mansa, fácil.
Engraçado porque depois essas mesmas pessoas que facilmente me agarraram são as que me acusam de ser fugidia e distante, esquiva e ausente.
Então eu penso: se calhar é isto que é ser carente, é não oferecer resistência a qualquer carícia, sem querer saber de quem a oferece.
Se calhar é isso: os rapazes apaixonam-se por mim e eu, caso me sinta um pouquinho atraída, cá vai disto, e tento apaixonar-me também, facilmente me entregando a qualquer idiota que se apresente num determinado momento da minha vida em que, por acaso, eu até estou aberta a pensar que posso gostar de alguém.
Claro, dir-me-ão que tem a ver com a falta de auto estima: como se eu achasse tão incrível alguém gostar de mim, que me precipito a ficar em dívida com essa pessoa, dando-me como penhor do amor que me é oferecido.
Pois se é oferecido Madalena, porque tens tu que o pagar?
Hoje, um parvalhão irritante tocou-me na cara. Parece-me que sem qualquer intenção sexual, foi apenas uma coisa que fez porque às vezes as pessoas acham que eu sou uma querida.
E eu não lhe bati nem lhe ralhei.
Não o esmurrei.
Não o pontapeei.
Não lhe dei nenhum estalo nem o pus na ordem.
Não me conhece de lado nenhum, não me toca assim na cara, nas minhas sensíveis bochechas, não é?
Mas percebi que, através daquela situação, Deus quis que eu descobrisse mais uma coisa sobre mim.
A gatinha dos telhados era uma selvagem como nunca se viu no quintal quando, há mais de 15 anos, foi morar connosco.
Era muito bonita mas pouco domesticável.
Quando o cão Alex veio também para o quintal, a sua loucura afastou a gatinha para os telhados, onde passou muito tempo da sua vida.
À medida que os anos passavam, ela tornava-se cada vez mais meiga e feliz.
Os outros gatos iam e vinham mas ela nunca ia embora, sempre consistente com o seu percurso de vida, crescendo de uma juventude um pouco agressiva para amadurecer na mansidão, sem perder a sua postura de gata do campo.
Da última vez que a vi, alertaram-me que ela devia estar a morrer.
Fui para o pé dela e dei-lhe muitas festinhas e ela sorriu-me.
Sabíamos, eu e ela, que era uma despedida poir ela devia ir morrer longe dos donos, como fazem os gatos.
Segundo me contou o meu pai, foi a enxurrada que a matou.
- Ela não se aguentou com a chuva, a tonta não veio para o alpendre e a força da chuva levou-a. A tonta.
O meu pai acha sempre que é possível a salvação.
Deu com a gatinha na manhã seguinte do temporal, junto de um poste, na rua.
Morta.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A monstra precisa de amigos porque a sinceridade é sobrevalorizada

Recordaram na RADAR que o album dos Ornatos faz 10 anos.
Fui ouvi-lo.
Ando bem mais rock que folk embora a noite passada tenha sonhado com gatinhos (sonhei que andava um gatinho nas traseiras do meu quarto que eu teria que adoptar - e seríamos felizes os dois a ver televisão ou a costurar - e depois acordei a sentir lambidelas nos meus dedos que pensei que fossem da Jonas mas a Jonas continuou no quintal e eu já não moro no quintal - este sonho deu-me logo em que pensar durante uma boa meia hora).
Num devaneio de domingo à noite, mandei-lhe um mail cheio de desabafos íntimos sobre os meus problemas em que terminava com uns belos paragrafos melolíricos acerca das minhas questões com ele e com a nossa relação.
E na segunda de manhã, as coisas pareciam bem menos sombrias na minha cabeça, já que na noite anterior tinha pegado na minha escuridão e, embrulhando-a num cocktail molotov em forma de mail, mandei-a com toda a força para cima dele, acertando-lhe em cheio.
E quem sou eu para te ensinar agora
A ver o lado claro de um dia mau
Não sou flor que se cheire.
Mas claro que agora estou triste.
Eu sei
A tua vida foi
Marcada pela dor de não saber aonde dói
Já tive que estragar tudo.
E agora não sei bem que fazer.
Mas para quê gastar o meu tempo
A ver se aperto a tua mão
Houve alguma precipitação da minha parte.
Esta coisa de abrir o coração nem sempre funciona.
O que eu quis mostrar ao mundo
Era tão forte e tão profundo
Eu quase me afoguei na emoção
Voltei ao que sempre fui.
Tenho algum medo do que possa acontecer.
Eu fui tão mau para mim
Eu fui tão pouco para nós
Bem que o meu pai quase me avisou
Começo agora a medir o trauma futuro.
Não tarda vou dizer que "a culpa foi minha".
Pra viver
E gostar
De gostar
De viver
Pra fugir
Pra mostrar
Pra dizer
Pra ter paz
Pra dormir
Pra fingir acordar
Para ser
Derramar
Para nunca mais tentar
Mentir
sábado, 10 de outubro de 2009
As pessoas saudáveis não têm nada de especial, nem eu
Agora tenho uma webcam.
Às vezes ligo-a e fico a olhar para mim a olhar para o monitor.
Faz parte de um projecto que eu tenho de auto aceitação e de aumento dos meus níveis de auto estima.
Ele diz-me que prefere sem webcam. Que assim consegue ver que eu não me estou sempre a rir.
Na minha cabeça, eu mando-o para o cara... e suspiro em profundidade e irritação.
Mas perante o trabalho que me ia dar explicar-lhe porquê é que me aborrece que ele diga que prefere sem webcam, calo-me.
Quero lá saber, eu gosto disto, de imagens.
Enquanto estou a postar, às vezes vou ver-me, ver o movimento dos olhos, ver como se eu mexer no cabelo com a mão direita, isso vai "reflectir-se" no lado esquerdo do ecrã.
Ai o cinema, o cinema.
(suspiro de deleite e sorriso)
Será que o cinema é uma motivação interior?
A minha médica é uma mulher inteligente.
Olhou para mim e nem falamos muito, uma consulta de minutos só para ela me dizer que eu tenho que querer viver, para viver.
"Motivação interior".
Ainda se falou nas distrofrias da minha barriga, na medicação, nos vários factores que possam ter interferido para este descalabro mas basicamente neste momento só é preciso eu querer viver.
(fui olhar para mim outra vez - os meus lábios não parecem tão finos como eu penso que eles são)
Eu nem discuti com a médica, bastou olhar para ela, respirar fundo, esticar as pernas,coçar a nuca e dizer, a expirar, pois é.
Às vezes, eu observo o pânico das pessoas saudáveis perante a hipótese de adoecerem e penso em como, efectivamente, eu não ligo assim tanto ao meu corpo.
Consigo saber que ele está a apodrecer e não fazer absolutamente nada.
(tirei os óculos para me ver mas sem óculos não vejo muito nítido).
"motivação interior"
Isso é o quê mesmo?
As pessoas que gostam de mim às vezes falam-me em cura, e eu, da minha altivez de doente crónica, desprezo esse discurso, e explico o que é possível e o que é impossível.
Mas se calhar se eu gostasse tanto de mim como essas pessoas, eu tinha o diário da glicémia mais actualizado, eu estudava-o semanalmente, eu gastava tempo com o meu corpo, e alterava o esquema de insulina quantas vezes fosse preciso até ficar bem.
Mas eu prefiro com webcam.
Para me ver a mim e aos outros.
E prefiro com música.
E gosto mais quando a conversa não é séria.
Adoro quando é para rir.
É reconfortante quando a culpa não é minha, seria mesmo bom que eu não precisasse de querer viver para viver.
(de facto, eu fui ver agora o meu ar e é assustadoramente sério e pesado, se calhar é mesmo melhor sem webcam)
Às vezes ligo-a e fico a olhar para mim a olhar para o monitor.
Faz parte de um projecto que eu tenho de auto aceitação e de aumento dos meus níveis de auto estima.
Ele diz-me que prefere sem webcam. Que assim consegue ver que eu não me estou sempre a rir.
Na minha cabeça, eu mando-o para o cara... e suspiro em profundidade e irritação.
Mas perante o trabalho que me ia dar explicar-lhe porquê é que me aborrece que ele diga que prefere sem webcam, calo-me.
Quero lá saber, eu gosto disto, de imagens.
Enquanto estou a postar, às vezes vou ver-me, ver o movimento dos olhos, ver como se eu mexer no cabelo com a mão direita, isso vai "reflectir-se" no lado esquerdo do ecrã.
Ai o cinema, o cinema.
(suspiro de deleite e sorriso)
Será que o cinema é uma motivação interior?
A minha médica é uma mulher inteligente.
Olhou para mim e nem falamos muito, uma consulta de minutos só para ela me dizer que eu tenho que querer viver, para viver.
"Motivação interior".
Ainda se falou nas distrofrias da minha barriga, na medicação, nos vários factores que possam ter interferido para este descalabro mas basicamente neste momento só é preciso eu querer viver.
(fui olhar para mim outra vez - os meus lábios não parecem tão finos como eu penso que eles são)
Eu nem discuti com a médica, bastou olhar para ela, respirar fundo, esticar as pernas,coçar a nuca e dizer, a expirar, pois é.
Às vezes, eu observo o pânico das pessoas saudáveis perante a hipótese de adoecerem e penso em como, efectivamente, eu não ligo assim tanto ao meu corpo.
Consigo saber que ele está a apodrecer e não fazer absolutamente nada.
(tirei os óculos para me ver mas sem óculos não vejo muito nítido).
"motivação interior"
Isso é o quê mesmo?
As pessoas que gostam de mim às vezes falam-me em cura, e eu, da minha altivez de doente crónica, desprezo esse discurso, e explico o que é possível e o que é impossível.
Mas se calhar se eu gostasse tanto de mim como essas pessoas, eu tinha o diário da glicémia mais actualizado, eu estudava-o semanalmente, eu gastava tempo com o meu corpo, e alterava o esquema de insulina quantas vezes fosse preciso até ficar bem.
Mas eu prefiro com webcam.
Para me ver a mim e aos outros.
E prefiro com música.
E gosto mais quando a conversa não é séria.
Adoro quando é para rir.
É reconfortante quando a culpa não é minha, seria mesmo bom que eu não precisasse de querer viver para viver.
(de facto, eu fui ver agora o meu ar e é assustadoramente sério e pesado, se calhar é mesmo melhor sem webcam)
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