Ele disse-me uma vez que eu devia tirar um retrato para registar a minha bela juventude.
Eu primeiro achei uma idiotice que resolvi ignorar mas lembro-me às vezes dessa sugestão.
Eu vi uma pessoa morrer há um ano atrás.
Vi o corpo a morrer hora a hora.
E era uma pessoa que eu amava.
Hoje ainda não consigo falar nisso.
Em 1986, e nos anos que se seguiram, havia muitos jogos e livros para crianças relativos à Europa.
Num dos natais desses anos, eu ganhei um livro sobre a construção da Europa, onde havia umas folhas em branco para colar fotos e registar acontecimentos europeus.
De maneira que, quando o muro de Berlim caiu, em 1989, eu recortei uma notícia de jornal e colei nesse livro.
Tinha 8 anos e lembro-me que me sentei no corredor da minha casa a fazer isso. Foi divertido porque recortar era uma actividade que sempre me agradou.
Eu gostava de ter fotos minhas que registassem coisas boas.
Fui eu que escolhi a foto que está na campa da minha avó.
É uma foto tirada no casamento da minha irmã, tirada minutos após a minha irmã nos ter dado a todas as mulheres da família um raminho de flores, juntamo-nos ao pé do canteiro de flores perto do baloiço e lá estamos nós, muito felizes.
Penso que é a única foto no cemitério em que o defunto está a rir.
A 9 de Novembro de 2007, pelas 17h, nascia a minha segunda sobrinha.
E há uma foto, tirada umas duas horas depois, em que estou eu, a minha irmã, a minha sobrinha mais velha e a recém nascida, todas felizes, a olharmos umas para as outras e para o bébé ao mesmo tempo.
Eu pergunto à minha médica:
- Mas se calhar isso onde me dói são pontos sensíveis que doem a toda a gente se forem pressionados.
- Não, não é suposto doer. Só te doem a ti, porque estão inflamados.
A vida não é suposto doer, a não ser que esteja ferida.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Chattanooga Choo Choo
Eles dizem-me muitas vezes que eu só os estou a deixar porque ainda não percebi o que é o amor.
Daí a começarem a dizer que eu ando à procura do príncipe encantado vão uns 15 minutos se estivermos num sítio agradável. Mas se estivermos ao ar livre, e estiver frio, eles demoram menos que 5 minutos a falar nisso.
Penso que é porque gostam muito de mim.
E eu sei bem o que é isso de gostar de alguem: é um martírio. Ficamos totalmente desgovernados.
Ser correspondida torna-se numa obsessão, vive-se num desespero e numa inquietação permanentes e há um ponto de tensão - que mais tarde reconhecemos como o ponto da estupidez - em que nos parece que ofender o outro é o passo mais lógico a seguir.
E eu sou insegura e quando me dizem que sabem o que é o amor eu penso: bom, eu faço uma ideia do que seja o amor mas esta pessoa que está diante de mim parece ter muito mais certezas que eu por isso até se calhar o melhor é ouvi-lo com atenção.
Mas depois, possivelmente quando já estão muito fartos de "lutar contra mim" (expressão que também é frequente usarem comigo), falam nisso do príncipe encantado, com um tom ligeiramente insultuoso e com alguma arrogância à mistura, como se me estivessem a dizer:
Tu achas que vais encontrar melhor do que isto que nós temos mas não vais.
O problema não está no facto de não gostares de mim, o problema está em achares que sabes do que gostas.
Mas sei: gosto do Glenn Miller!
Daí a começarem a dizer que eu ando à procura do príncipe encantado vão uns 15 minutos se estivermos num sítio agradável. Mas se estivermos ao ar livre, e estiver frio, eles demoram menos que 5 minutos a falar nisso.
Penso que é porque gostam muito de mim.
E eu sei bem o que é isso de gostar de alguem: é um martírio. Ficamos totalmente desgovernados.
Ser correspondida torna-se numa obsessão, vive-se num desespero e numa inquietação permanentes e há um ponto de tensão - que mais tarde reconhecemos como o ponto da estupidez - em que nos parece que ofender o outro é o passo mais lógico a seguir.
E eu sou insegura e quando me dizem que sabem o que é o amor eu penso: bom, eu faço uma ideia do que seja o amor mas esta pessoa que está diante de mim parece ter muito mais certezas que eu por isso até se calhar o melhor é ouvi-lo com atenção.
Mas depois, possivelmente quando já estão muito fartos de "lutar contra mim" (expressão que também é frequente usarem comigo), falam nisso do príncipe encantado, com um tom ligeiramente insultuoso e com alguma arrogância à mistura, como se me estivessem a dizer:
Tu achas que vais encontrar melhor do que isto que nós temos mas não vais.
O problema não está no facto de não gostares de mim, o problema está em achares que sabes do que gostas.
Mas sei: gosto do Glenn Miller!
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
A triste morte da gata dos telhados
Quando subimos no elevador, eu descobri uma coisa sobre mim.
Eu não resisto à carícia, à festinha e ao abraço.
Lembrei-me do final de tarde, 35º lá no lago onde se meditava em silêncio e ele me tentava engatar, e eu não sabia bem o que fazer.
Foi muito fácil para ele estender-me a mão e puxar-me para ele, para um beijo.
Não ofereci qualquer resistência.
Agora que penso nisso: porque não ofereci eu resistência?
Tento lembrar-me de mais situações idênticas, essas situações de primeiros toques, de primeiros abraços, de beijos e essas coisas e vejo-me sempre dócil, mansa, fácil.
Engraçado porque depois essas mesmas pessoas que facilmente me agarraram são as que me acusam de ser fugidia e distante, esquiva e ausente.
Então eu penso: se calhar é isto que é ser carente, é não oferecer resistência a qualquer carícia, sem querer saber de quem a oferece.
Se calhar é isso: os rapazes apaixonam-se por mim e eu, caso me sinta um pouquinho atraída, cá vai disto, e tento apaixonar-me também, facilmente me entregando a qualquer idiota que se apresente num determinado momento da minha vida em que, por acaso, eu até estou aberta a pensar que posso gostar de alguém.
Claro, dir-me-ão que tem a ver com a falta de auto estima: como se eu achasse tão incrível alguém gostar de mim, que me precipito a ficar em dívida com essa pessoa, dando-me como penhor do amor que me é oferecido.
Pois se é oferecido Madalena, porque tens tu que o pagar?
Hoje, um parvalhão irritante tocou-me na cara. Parece-me que sem qualquer intenção sexual, foi apenas uma coisa que fez porque às vezes as pessoas acham que eu sou uma querida.
E eu não lhe bati nem lhe ralhei.
Não o esmurrei.
Não o pontapeei.
Não lhe dei nenhum estalo nem o pus na ordem.
Não me conhece de lado nenhum, não me toca assim na cara, nas minhas sensíveis bochechas, não é?
Mas percebi que, através daquela situação, Deus quis que eu descobrisse mais uma coisa sobre mim.
A gatinha dos telhados era uma selvagem como nunca se viu no quintal quando, há mais de 15 anos, foi morar connosco.
Era muito bonita mas pouco domesticável.
Quando o cão Alex veio também para o quintal, a sua loucura afastou a gatinha para os telhados, onde passou muito tempo da sua vida.
À medida que os anos passavam, ela tornava-se cada vez mais meiga e feliz.
Os outros gatos iam e vinham mas ela nunca ia embora, sempre consistente com o seu percurso de vida, crescendo de uma juventude um pouco agressiva para amadurecer na mansidão, sem perder a sua postura de gata do campo.
Da última vez que a vi, alertaram-me que ela devia estar a morrer.
Fui para o pé dela e dei-lhe muitas festinhas e ela sorriu-me.
Sabíamos, eu e ela, que era uma despedida poir ela devia ir morrer longe dos donos, como fazem os gatos.
Segundo me contou o meu pai, foi a enxurrada que a matou.
- Ela não se aguentou com a chuva, a tonta não veio para o alpendre e a força da chuva levou-a. A tonta.
O meu pai acha sempre que é possível a salvação.
Deu com a gatinha na manhã seguinte do temporal, junto de um poste, na rua.
Morta.
Eu não resisto à carícia, à festinha e ao abraço.
Lembrei-me do final de tarde, 35º lá no lago onde se meditava em silêncio e ele me tentava engatar, e eu não sabia bem o que fazer.
Foi muito fácil para ele estender-me a mão e puxar-me para ele, para um beijo.
Não ofereci qualquer resistência.
Agora que penso nisso: porque não ofereci eu resistência?
Tento lembrar-me de mais situações idênticas, essas situações de primeiros toques, de primeiros abraços, de beijos e essas coisas e vejo-me sempre dócil, mansa, fácil.
Engraçado porque depois essas mesmas pessoas que facilmente me agarraram são as que me acusam de ser fugidia e distante, esquiva e ausente.
Então eu penso: se calhar é isto que é ser carente, é não oferecer resistência a qualquer carícia, sem querer saber de quem a oferece.
Se calhar é isso: os rapazes apaixonam-se por mim e eu, caso me sinta um pouquinho atraída, cá vai disto, e tento apaixonar-me também, facilmente me entregando a qualquer idiota que se apresente num determinado momento da minha vida em que, por acaso, eu até estou aberta a pensar que posso gostar de alguém.
Claro, dir-me-ão que tem a ver com a falta de auto estima: como se eu achasse tão incrível alguém gostar de mim, que me precipito a ficar em dívida com essa pessoa, dando-me como penhor do amor que me é oferecido.
Pois se é oferecido Madalena, porque tens tu que o pagar?
Hoje, um parvalhão irritante tocou-me na cara. Parece-me que sem qualquer intenção sexual, foi apenas uma coisa que fez porque às vezes as pessoas acham que eu sou uma querida.
E eu não lhe bati nem lhe ralhei.
Não o esmurrei.
Não o pontapeei.
Não lhe dei nenhum estalo nem o pus na ordem.
Não me conhece de lado nenhum, não me toca assim na cara, nas minhas sensíveis bochechas, não é?
Mas percebi que, através daquela situação, Deus quis que eu descobrisse mais uma coisa sobre mim.
A gatinha dos telhados era uma selvagem como nunca se viu no quintal quando, há mais de 15 anos, foi morar connosco.
Era muito bonita mas pouco domesticável.
Quando o cão Alex veio também para o quintal, a sua loucura afastou a gatinha para os telhados, onde passou muito tempo da sua vida.
À medida que os anos passavam, ela tornava-se cada vez mais meiga e feliz.
Os outros gatos iam e vinham mas ela nunca ia embora, sempre consistente com o seu percurso de vida, crescendo de uma juventude um pouco agressiva para amadurecer na mansidão, sem perder a sua postura de gata do campo.
Da última vez que a vi, alertaram-me que ela devia estar a morrer.
Fui para o pé dela e dei-lhe muitas festinhas e ela sorriu-me.
Sabíamos, eu e ela, que era uma despedida poir ela devia ir morrer longe dos donos, como fazem os gatos.
Segundo me contou o meu pai, foi a enxurrada que a matou.
- Ela não se aguentou com a chuva, a tonta não veio para o alpendre e a força da chuva levou-a. A tonta.
O meu pai acha sempre que é possível a salvação.
Deu com a gatinha na manhã seguinte do temporal, junto de um poste, na rua.
Morta.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A monstra precisa de amigos porque a sinceridade é sobrevalorizada

Recordaram na RADAR que o album dos Ornatos faz 10 anos.
Fui ouvi-lo.
Ando bem mais rock que folk embora a noite passada tenha sonhado com gatinhos (sonhei que andava um gatinho nas traseiras do meu quarto que eu teria que adoptar - e seríamos felizes os dois a ver televisão ou a costurar - e depois acordei a sentir lambidelas nos meus dedos que pensei que fossem da Jonas mas a Jonas continuou no quintal e eu já não moro no quintal - este sonho deu-me logo em que pensar durante uma boa meia hora).
Num devaneio de domingo à noite, mandei-lhe um mail cheio de desabafos íntimos sobre os meus problemas em que terminava com uns belos paragrafos melolíricos acerca das minhas questões com ele e com a nossa relação.
E na segunda de manhã, as coisas pareciam bem menos sombrias na minha cabeça, já que na noite anterior tinha pegado na minha escuridão e, embrulhando-a num cocktail molotov em forma de mail, mandei-a com toda a força para cima dele, acertando-lhe em cheio.
E quem sou eu para te ensinar agora
A ver o lado claro de um dia mau
Não sou flor que se cheire.
Mas claro que agora estou triste.
Eu sei
A tua vida foi
Marcada pela dor de não saber aonde dói
Já tive que estragar tudo.
E agora não sei bem que fazer.
Mas para quê gastar o meu tempo
A ver se aperto a tua mão
Houve alguma precipitação da minha parte.
Esta coisa de abrir o coração nem sempre funciona.
O que eu quis mostrar ao mundo
Era tão forte e tão profundo
Eu quase me afoguei na emoção
Voltei ao que sempre fui.
Tenho algum medo do que possa acontecer.
Eu fui tão mau para mim
Eu fui tão pouco para nós
Bem que o meu pai quase me avisou
Começo agora a medir o trauma futuro.
Não tarda vou dizer que "a culpa foi minha".
Pra viver
E gostar
De gostar
De viver
Pra fugir
Pra mostrar
Pra dizer
Pra ter paz
Pra dormir
Pra fingir acordar
Para ser
Derramar
Para nunca mais tentar
Mentir
sábado, 10 de outubro de 2009
As pessoas saudáveis não têm nada de especial, nem eu
Agora tenho uma webcam.
Às vezes ligo-a e fico a olhar para mim a olhar para o monitor.
Faz parte de um projecto que eu tenho de auto aceitação e de aumento dos meus níveis de auto estima.
Ele diz-me que prefere sem webcam. Que assim consegue ver que eu não me estou sempre a rir.
Na minha cabeça, eu mando-o para o cara... e suspiro em profundidade e irritação.
Mas perante o trabalho que me ia dar explicar-lhe porquê é que me aborrece que ele diga que prefere sem webcam, calo-me.
Quero lá saber, eu gosto disto, de imagens.
Enquanto estou a postar, às vezes vou ver-me, ver o movimento dos olhos, ver como se eu mexer no cabelo com a mão direita, isso vai "reflectir-se" no lado esquerdo do ecrã.
Ai o cinema, o cinema.
(suspiro de deleite e sorriso)
Será que o cinema é uma motivação interior?
A minha médica é uma mulher inteligente.
Olhou para mim e nem falamos muito, uma consulta de minutos só para ela me dizer que eu tenho que querer viver, para viver.
"Motivação interior".
Ainda se falou nas distrofrias da minha barriga, na medicação, nos vários factores que possam ter interferido para este descalabro mas basicamente neste momento só é preciso eu querer viver.
(fui olhar para mim outra vez - os meus lábios não parecem tão finos como eu penso que eles são)
Eu nem discuti com a médica, bastou olhar para ela, respirar fundo, esticar as pernas,coçar a nuca e dizer, a expirar, pois é.
Às vezes, eu observo o pânico das pessoas saudáveis perante a hipótese de adoecerem e penso em como, efectivamente, eu não ligo assim tanto ao meu corpo.
Consigo saber que ele está a apodrecer e não fazer absolutamente nada.
(tirei os óculos para me ver mas sem óculos não vejo muito nítido).
"motivação interior"
Isso é o quê mesmo?
As pessoas que gostam de mim às vezes falam-me em cura, e eu, da minha altivez de doente crónica, desprezo esse discurso, e explico o que é possível e o que é impossível.
Mas se calhar se eu gostasse tanto de mim como essas pessoas, eu tinha o diário da glicémia mais actualizado, eu estudava-o semanalmente, eu gastava tempo com o meu corpo, e alterava o esquema de insulina quantas vezes fosse preciso até ficar bem.
Mas eu prefiro com webcam.
Para me ver a mim e aos outros.
E prefiro com música.
E gosto mais quando a conversa não é séria.
Adoro quando é para rir.
É reconfortante quando a culpa não é minha, seria mesmo bom que eu não precisasse de querer viver para viver.
(de facto, eu fui ver agora o meu ar e é assustadoramente sério e pesado, se calhar é mesmo melhor sem webcam)
Às vezes ligo-a e fico a olhar para mim a olhar para o monitor.
Faz parte de um projecto que eu tenho de auto aceitação e de aumento dos meus níveis de auto estima.
Ele diz-me que prefere sem webcam. Que assim consegue ver que eu não me estou sempre a rir.
Na minha cabeça, eu mando-o para o cara... e suspiro em profundidade e irritação.
Mas perante o trabalho que me ia dar explicar-lhe porquê é que me aborrece que ele diga que prefere sem webcam, calo-me.
Quero lá saber, eu gosto disto, de imagens.
Enquanto estou a postar, às vezes vou ver-me, ver o movimento dos olhos, ver como se eu mexer no cabelo com a mão direita, isso vai "reflectir-se" no lado esquerdo do ecrã.
Ai o cinema, o cinema.
(suspiro de deleite e sorriso)
Será que o cinema é uma motivação interior?
A minha médica é uma mulher inteligente.
Olhou para mim e nem falamos muito, uma consulta de minutos só para ela me dizer que eu tenho que querer viver, para viver.
"Motivação interior".
Ainda se falou nas distrofrias da minha barriga, na medicação, nos vários factores que possam ter interferido para este descalabro mas basicamente neste momento só é preciso eu querer viver.
(fui olhar para mim outra vez - os meus lábios não parecem tão finos como eu penso que eles são)
Eu nem discuti com a médica, bastou olhar para ela, respirar fundo, esticar as pernas,coçar a nuca e dizer, a expirar, pois é.
Às vezes, eu observo o pânico das pessoas saudáveis perante a hipótese de adoecerem e penso em como, efectivamente, eu não ligo assim tanto ao meu corpo.
Consigo saber que ele está a apodrecer e não fazer absolutamente nada.
(tirei os óculos para me ver mas sem óculos não vejo muito nítido).
"motivação interior"
Isso é o quê mesmo?
As pessoas que gostam de mim às vezes falam-me em cura, e eu, da minha altivez de doente crónica, desprezo esse discurso, e explico o que é possível e o que é impossível.
Mas se calhar se eu gostasse tanto de mim como essas pessoas, eu tinha o diário da glicémia mais actualizado, eu estudava-o semanalmente, eu gastava tempo com o meu corpo, e alterava o esquema de insulina quantas vezes fosse preciso até ficar bem.
Mas eu prefiro com webcam.
Para me ver a mim e aos outros.
E prefiro com música.
E gosto mais quando a conversa não é séria.
Adoro quando é para rir.
É reconfortante quando a culpa não é minha, seria mesmo bom que eu não precisasse de querer viver para viver.
(de facto, eu fui ver agora o meu ar e é assustadoramente sério e pesado, se calhar é mesmo melhor sem webcam)
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Web. 2.0, a minha reputação digital e a dracma perdida

Pois é.
É ele.
Parecia um livro, ou filme, ou mesmo um videoclip dos bons, pelo menos na minha cabeça parecia, quando eu me aproximei do sítio onde o tinha visto há dias e comecei a abrandar para ver se ele ainda lá estava.
Não tive que procurar muito quando o vi, o meu botão.
Apanhei-o e olhei bem para ele.
Comecei a rir.
Depois levei-o fechado na minha mão e fui sempre a rir até ao trabalho.
Na verdade, nem atribuí nenhum simbolismo a esta historieta até ao final do dia, quando contei a um amigo que tinha encontrado o botão perdido e ele me resmungou: boa, então a ver se agora vais aí apanhar os outros botões que andam perdidos, numa alusão ao catalão e às coisas boas da vida em geral.
Só não lhe dei um estalo na cara ali mesmo porque ele é meu amigo, mas ele já devia saber que isso de se dizerem verdades aos amigos já foi chão que deu uvas, toda a gente sabe que, a bem do bom funcionamento da amizade, o melhor é dizer aquilo que o nosso interlocutor quer ouvir.
E eu queria ouvir: mas essa história do botão é a mais maravilhosa que ouvi nos últimos tempos, atribuíste-lhe algum simbolismo?
E eu responderia que não, que isso é só um botão qualquer que ficou dias a fio no chão, a ser pisado pelos transeuntes e atropelado pelos ciclistas que frequentam o jardim, à minha espera virado para baixo, para eu o reencontrar, como uma surpresa boa, como nos filmes em que parece que a personagem principal está morta mas depois abre os olhos muito de repente, foi só isso, só um botão que mais parece aquele sonho que eu tinha nas férias de verão, quando vinha uma onda grande e trazia centenas de brinquedos de praia, todos para mim, e agora o botão está no meu bolso, mas não tem qualquer simbologia, que eu só digo a mim mesma aquilo que eu quero ouvir.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
"O-o-old habits die hard when you got a sentimental heart "
Ia a pensar na estranha insistência das pessoas da cidade em apregoar que o correcto é esterilizar animais como a minha gata Jonas, que emprenham sempre pela altura do cio, quando vi no chão um botãozinho em forma de rosa vermelha, de plástico cor-de-rosa.
Parei, e olhei para ele.
Ele olhou para mim.
Não o apanhei e achei que tinha chegado à idade adulta.
Adulta não, antes medrosa, medricas, mandriona e chata. Não me quis agachar, mexer no chão mas ainda hoje me lembro dele e arrependo-me de não o ter apanhado.
Se calhar o amor é mesmo a Celine Dion a guinchar-me que está ready to learn the power of love de um radio qualquer na Catalunha, eu só ando a ver se me mantenho aberta a todas as inovações, desde que sejam para melhor.
Neste sentido, abro o meu coração à perspectiva de não saber de todo o que é amar, o amor, receber amor, sei lá o que digo, mas sei que até agora até tem estado a ser bom.
Só que em caso de dúvida ou de persistência de certos sintomas deve consultar-se o médico e foi mais ou menos por isto que dei por mim, nessa tarde em que deixei o meu botão de rosa sozinho no chão do jardim do Campo Grande abandonado à sua sorte, a pensar em fazer terapia, eu que nem acredito em terapia, mas agora como ando nesta coisa meio idiota, meio existencialista, meio libertadora, meio assustadora de colocar em causa e relativizar muita coisa que eu achava saber, porque não ir a um terapeuta e dizer-lhe que
suspeito que tenho um problema.
(aqui faço uma pausa e respiro fundo - uso depois as mãos para enfatizar a minha reflexão)
Nos momentos de uma relação em que eu pressinto que é preciso tomar uma decisão que a faça evoluir e a bola está do meu lado, eu bloqueio, ou finjo que bloqueio
(aqui uma risada para induzir o terapeuta a gostar de mim porque eu tenho necessidade que toda a gente goste de mim),
eu sou preguiçosa e vou pelo caminho mais fácil que é terminar tudo, engonhando um bocado antes mas depois acabando com tudo e pronto.
(aqui eu faço uma cara séria e introspectiva, talvez um queixinho a tremer na promessa de uma lágrima e continuo, em jeito de conclusão)
Eu sei. eu sei que que isto de "tomar decisões"
(gesto das aspas)
é uma ilusão, é uma coisa que eu crio na minha cabeça, uma pressão sobre a minha vida...
(talvez aqui o terapeuta queira dizer alguma coisa e por isso calo-me um bocado mas depois continuo)
O melhor é viver, e não meta viver, não é?
(aqui faço um sorriso triste e olho para o infinito e penso, ganhei esta merda toda, ganhei no jogo da terapia, fui mais longe que o terapeuta, com esta do meta viver é que o lixei)
Termina a sessão e vejo que fez efeito quando penso:
Que se lixe, venha o Phil Collins, eu quero ser como a Celine e estar ready para aprender o power do amor, sem que isso me dê vontade de fugir e de rir, não necessariamente por esta ordem.
Parei, e olhei para ele.
Ele olhou para mim.
Não o apanhei e achei que tinha chegado à idade adulta.
Adulta não, antes medrosa, medricas, mandriona e chata. Não me quis agachar, mexer no chão mas ainda hoje me lembro dele e arrependo-me de não o ter apanhado.
Se calhar o amor é mesmo a Celine Dion a guinchar-me que está ready to learn the power of love de um radio qualquer na Catalunha, eu só ando a ver se me mantenho aberta a todas as inovações, desde que sejam para melhor.
Neste sentido, abro o meu coração à perspectiva de não saber de todo o que é amar, o amor, receber amor, sei lá o que digo, mas sei que até agora até tem estado a ser bom.
Só que em caso de dúvida ou de persistência de certos sintomas deve consultar-se o médico e foi mais ou menos por isto que dei por mim, nessa tarde em que deixei o meu botão de rosa sozinho no chão do jardim do Campo Grande abandonado à sua sorte, a pensar em fazer terapia, eu que nem acredito em terapia, mas agora como ando nesta coisa meio idiota, meio existencialista, meio libertadora, meio assustadora de colocar em causa e relativizar muita coisa que eu achava saber, porque não ir a um terapeuta e dizer-lhe que
suspeito que tenho um problema.
(aqui faço uma pausa e respiro fundo - uso depois as mãos para enfatizar a minha reflexão)
Nos momentos de uma relação em que eu pressinto que é preciso tomar uma decisão que a faça evoluir e a bola está do meu lado, eu bloqueio, ou finjo que bloqueio
(aqui uma risada para induzir o terapeuta a gostar de mim porque eu tenho necessidade que toda a gente goste de mim),
eu sou preguiçosa e vou pelo caminho mais fácil que é terminar tudo, engonhando um bocado antes mas depois acabando com tudo e pronto.
(aqui eu faço uma cara séria e introspectiva, talvez um queixinho a tremer na promessa de uma lágrima e continuo, em jeito de conclusão)
Eu sei. eu sei que que isto de "tomar decisões"
(gesto das aspas)
é uma ilusão, é uma coisa que eu crio na minha cabeça, uma pressão sobre a minha vida...
(talvez aqui o terapeuta queira dizer alguma coisa e por isso calo-me um bocado mas depois continuo)
O melhor é viver, e não meta viver, não é?
(aqui faço um sorriso triste e olho para o infinito e penso, ganhei esta merda toda, ganhei no jogo da terapia, fui mais longe que o terapeuta, com esta do meta viver é que o lixei)
Termina a sessão e vejo que fez efeito quando penso:
Que se lixe, venha o Phil Collins, eu quero ser como a Celine e estar ready para aprender o power do amor, sem que isso me dê vontade de fugir e de rir, não necessariamente por esta ordem.
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